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terça-feira, 9 de setembro de 2014

CLAUDIO WILLER | Duas mentiras, de Floriano Martins



Com este Duas mentiras, Floriano Martins revela-se, mais uma vez, como uma das vozes mais originais da poesia contemporânea brasileira. E como alguém que está permanente a questionar a si mesmo, ao que faz, e principalmente o leitor. Evidentemente, provocar o leitor é um modo de instaurar o diálogo, de fazer que a leitura não se reduza a uma relação passiva, unilateral, mera fruição do texto do outro. Outro? Mas que outro? Quem é esse outro? – pode-se perguntar, e certamente o leitor perguntará, pois Duas mentiras transmite a impressão de que seu autor se esconde, ao adotar uma persona feminina. E mais, de que resolveu promover uma inflexão, mudança radical, se compararmos este livro com sua produção anterior – por exemplo, Alma em Chamas, seu livro de 1998 – que poderia ser perfilada ao barroco, ou, antes, a um surrealismo metafísico, além de ser associada a algumas das grandes construções de fragmentos que, na modernidade, ocuparam o lugar da epopéia. Aqui, não: o que temos é linguagem quase sempre direta, fluente, de poucas imagens. No lugar da sugestão promovida pela imagética de origem simbolista, há descrições, um percurso minucioso pelas regiões, desvãos e reentrâncias do corpo, por gradações e nuances do erótico. Tudo muito real, nada mentiroso. Poderia ser um depoimento, se o autor fosse aquele – aquela, no caso – que fala. Mas não é. Resta saber se esta é a voz de outro (de outra) ou se sua própria voz é a voz do outro.
Procurando neste novo livro o Floriano dos poemas anteriores, encontramos algo em comum: a preferência pelo poema dramático, com um personagem, um protagonista, que enuncia e declara algo. Mas, cabe insistir, onde está a mentira? Talvez esta seja uma falsa questão, por endossar uma poética realista, da arte como mimese. Sob o ponto de vista literário, é irrelevante se tudo isso foi inventado, ou não. Tanto faz: se não aconteceu, pode acontecer. Acontece. O relato, ou pseudo-relato em Duas mentiras é universal.
Encarar um texto como quebra-cabeças, enigma a ser decifrado, talvez não seja um bom procedimento crítico. Passa ao largo de muita coisa – encontrada a chave, ou uma aparente chave, deixa-se de lado o percurso para chegar lá, o estilo, a “escritura” propriamente dita. Mas, note-se, Floriano se refere a duas mentiras – se entendermos mentira como sinônimo de negação, de enunciação do que não é, temos uma dupla negação. Uma afirmação através do avesso, nesse canto da reintegração ao todo através da união amorosa. Estes versos de Alma em Chamas podiam servir como sua epígrafe: Teu corpo e o meu caindo sobre o mundo: / noite saqueada por uma caravana de relâmpagos. O par relatado em Duas mentiras nega o tempo. Seu jogo, sua dança, como se expulsassem os espíritos corruptos, dos corpos nus com asas, ilustrados feito uma parábola insofismável, é um exorcismo da grande mentira, que é a passagem do tempo: o amor não tem nenhum apreço pela história. Por isso, refazíamos o enredo, fosse contra os cátaros ou a excomunhão de algum dualismo não revelado, pois tua heresia pacifica e me abrasa as dádivas. Para os amantes, que, ao multiplicar o gozo e o êxtase, superam a circunstância, as dicotomias entre real e imaginário, o mundo do simbólico e aquele das coisas, a mentira está lá fora.

[2008] 


[Prólogo do livro Duas mentiras, de Floriano Martins. São Paulo: Projeto Dulcinéia Catadora, 2008.]



quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CLAUDIO WILLER | A poesia e sua rebelião total


Terá uma decepção quem procurar o entretenimento ameno nas 300 páginas de Alma em Chamas (Letra & Música. Fortaleza. 1998), de Floriano Martins, poeta e incansável divulgador da literatura. No texto introdutório, ele avisa que não está aí para brincadeira. Declara-se à margem de uma literatura contemporânea que “vai da previsibilidade dos versos arrebanhadores de prêmios, dísticos, soluços, rimários, primor xerográfico, à preguiça mental evidenciada pelo epigrama dominical e à presunção do hai-kai”. Não quer nada do que está na moda ou seja modismo: que não se esperem dele experimentos formalistas, nem epigramas engraçados.
Se Alma em Chamas vier a frustrar leitores inadvertidos, não será por seus defeitos, mas por suas qualidades. Essa “mescla de devaneio e exatidão”, nas palavras do autor, é opaca pela espessura; sombria pela seriedade; enfática, reiterativa, pela gravidade do que diz; complexa por ser, entre outras coisas, poesia sobre poesia, espelhando a erudição do autor. O conjunto de dezenas de trechos, alternadamente versificados e em prosa, dividido em sete partes, é, na verdade, um só poema. A família literária à qual pertence é a dos autores, no século XX, de poemas extensos, que procuraram restaurar a épica e recuperar um cosmos, uma totalidade. As grandes obras inconclusas, inventários de derrotas, como Altazor, do chileno Vicente Huidobro, e Invenção de Orfeu, do nosso Jorge de Lima, aos quais Floriano se refere explicitamente, e talvez os Cantos de Ezra Pound ou Wasteland de T. S. Eliot. As epopeias sem final feliz, nas quais Ulisses não retorna a Ítaca. Textos descontínuos, fragmentários, alguns com estrutura de colagem, modalidade visual eleita por Floriano Martins.
Para não deixar dúvidas sobre seus propósitos, inicia o livro com um poema longo comentando a esquartejamento de Sebastian, o protagonista da peça De repente, no último verão, de Tennessee Williams. Contudo, a uma dada altura, não é mais desse anti-herói ausente que ele fala, mas de cenas e personagens da Divina Comédia. Revela-se a amplitude do que pretende, aonde quer chegar: a todo lugar, a lugar algum. Assume a “tarefa de escrever um livro impossível: o da personificação da morte”. Por isso, “dissolve-se na matéria de suas metáforas, / misturado à visão do livro findo inacabado”.
Crítica não é catalogar autores. Interessa, mais que localizá-los em alguma topografia literária, mostrar, no plano da análise formal ou da indicação de conteúdos, o que os diferencia e lhes confere sentido. Mas um tema inevitável, evocado pelo próprio Floriano Martins, é sua afinidade com a escrita barroca, a “estética do excesso”, na definição de Severo Sarduy. No entanto, se tomarmos o barroco como beletrismo, expressão do Século de Ouro espanhol, ele se apresenta como autor de outra coisa, a escrita de um século de sombras.
É possível avançar nas definições negativas, do que Floriano Martins não é, com o que não tem a ver. Correlatamente, pode-se identificá-lo a uma complexa teia de autores, da antiguidade a contemporâneos brasileiros, com destaque para o romantismo iniciador de Hölderlin e Blake, e uma constelação de ibero-americanos, abordados no recente Escritura Conquistada (1998) e outras de suas obras. Tais afinidades são indicadas em epígrafes, dedicatórias e alusões. “À luz das palavras de René Char / saímos a recolher versos”. Integram um “sangradouro de palimpsestos”, em uma relação sempre intertextual, nunca paródica. Ele procura, não o distanciamento crítico da paródia, mas a recuperação e resgate, em uma metáfora de um diálogo com o leitor, cujos termos têm que girar ao redor de questões essenciais: “em que tempo ocorre o verso? De onde provém todo o mal da poesia?”
As referências mais produtivas para interpretar Floriano Martins vêm de uma área de sobreposição entre filosofia e poesia que integra a herança romântica. Obriga a citar Hölderlin, sobre os poetas em um tempo de carência; e Heidegger, por sua vez referindo-se a Hölderlin, sobre a poesia e a condição humana em um tempo sem deuses, no mundo dessacralizado. O sentido de Alma em Chamas fica mais claro no poema intitulado “Séc. XX: secretas ruínas”, no qual a história é designada como algo virtual, ilusão. Alude, assim, ao ensaio de Walter Benjamin sobre um quadro de Klee, no qual há “um anjo que parece querer afastar-se de algo a que ele contempla”. O que o anjo contempla são ruínas, acumulação de escombros: “o que chamamos de Progresso é a tempestade que o impele”.
Alma em Chamas refere-se também à descida aos infernos de Orfeu, patrono dos poetas. Mas é uma viagem sem volta, errância pelo subterrâneo. Nela, encontra sombras indistintas da unidade perdida, algo que não existe mais, que já se perdeu. Uma saída, assinalada por boa parte da literatura moderna, principalmente pelo surrealismo, está em Eros, na reintegração ao todo através da união amorosa. É dita em versos como estes: “teu corpo e o meu caindo sobre o mundo: / noite saqueada por uma caravana de relâmpagos”. Contudo, nunca deixa de nos lembrar, desde o início do livro, que Eros e Tanatos caminham juntos; que Dioniso, regente do êxtase, é também um deus devorador.
Seria correto, mas redutor, ver Floriano Martins como autor de uma crítica de fundo metafísico e romântico à sociedade burguesa. Seu empreendimento é mais radical: volta-se contra o tempo e os limites da condição humana. É a rebelião total. Por isso, já abre o livro proclamando-se inspirado em William Blake, o poeta-profeta herético, expoente dessa rebeldia.


[1998]