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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

RODRIGO PETRONIO | Floriano Martins e o mergulho em todas as águas



A verdade é que todos querem ser Deus. E cada vez me parece que a grande tradição poética é consubstanciada por quem se recusa a sê-lo.
Floriano Martins

Se a inteligência de um homem é proporcional à sua capacidade de estabelecer recusas, ao conversar com o cearense Floriano Martins tem-se a nítida sensação de estar diante de um homem muito bem dotado dessa faculdade tão mal distribuída entre os seres humanos, sobretudo entre os intelectuais. Autor do livro de poemas Alma em Chamas, certamente um dos acontecimentos poéticos das últimas décadas, e de uma obra volumosa que abrange ensaios, crítica, tradução e entrevistas com poetas, além de uma série de inéditos, Floriano é um dos maiores conhecedores da poesia latino-americana moderna e contemporânea entre nós, e vem fazendo pontes das mais estimulantes entre essas literaturas e o Brasil. Mas, para nossa surpresa, é uma voz solitária e praticamente isolada em sua proposta. Pela importância e amplitude desse trabalho, veiculado sobretudo nas revistas virtuais Agulha e Banda Hispânica, das quais é editor, assusta sabermos que ele não tenha maior repercussão. Também é de se estranhar que algumas poéticas e estéticas como o Surrealismo, por exemplo, de grande penetração no resto da América e do mundo, não tenha encontrado acolhida em terras brasileiras. E Floriano, para reparar esse lapso e historiar o desenvolvimento do movimento lançado por Breton em Paris em 1921, publicou recentemente o livro O Começo da Busca – O Surrealismo na poesia da América Latina, que traça um perfil histórico dessa estética, emulando e invertendo o título de um livro onde Octavio Paz faz esforço similar, La Búsqueda del Comienzo. Agora prepara o segundo volume desse trabalho, que virá aprofundar, desenvolver e complementar alguns aspectos do primeiro.
São múltiplas as causas da negligência brasileira para com a cultura de seus vizinhos e da nossa resistência a um tipo de representação artística que ele crê das mais subversivas. E é entrando nesses assuntos que a conversa esquenta, e Floriano só falta soltar fogo pelas ventas. Um dos principais motivos dessa barreira brasileira é o que ele chama de “falseamento da história”. Segundo ele, todo corte brusco e abrupto na história produz uma falsificação, pois apaga a multiplicidade do fenômeno no momento em que ele estava ocorrendo. Assim, a eleição da Semana de 22 como o ingresso do Brasil na modernidade, embora seja um fator aparentemente irreversível, não dá conta da diversidade dos fatos e equivale à “leitura do curso das águas em uma lagoa”. Muita coisa se perdeu nesse processo, e a extensa documentação sobre cantos populares colhida por Alberto Nepomuceno, por exemplo, intelectual morto em 1920, anterior portanto à Semana, e de quem Floriano escreveu uma biografia, foi praticamente esquecida em proveito das pesquisas de Mario de Andrade. Por outro lado, o Modernismo teria inaugurado um “regime de exceção”, por meio do qual convalidou seu ideal de modernidade e de nacionalismo imbuído do Futurismo de Marinetti, e a partir do qual passou a criar os critérios eletivos para a formação do cânone literário no Brasil, critérios esses nem sempre de ordem estética, mas meramente ideológicos. E aqui entra o Surrealismo, mais especificamente os argumentos que Floriano desenvolve em O Começo da Busca, e a defesa de duas diretrizes: uma reavaliação urgente do lugar que Murilo Mendes e Jorge de Lima ocupam no cenário da literatura brasileira, instigando a crítica a desvinculá-los de vez dos estigmas limitadores da “poesia em Cristo”, e a recusa desses dois poetas como sendo os únicos representantes do Surrealismo no Brasil, aos quais Floriano soma os nomes de Roberto Piva, Claudio Willer e Sergio Lima, entre outros.
Essas faces se conciliam, no entanto. E ele faz um traçado oblíquo onde procura demonstrar as lacunas do cânone literário brasileiro, articulando-as à história do Surrealismo e a uma série de poetas hispano-americanos desconhecidos por nós. Suas reivindicações são duras, passam longe da fala amaneirada e adiposa com a qual viemos nos acostumando nos últimos tempos no âmbito do debate literário. Assim, ele começa julgando que mesmo a trinca de ases que gozam de prestígio em língua portuguesa – Paz, Neruda e Borges – deveria ser filtrada com maior seletividade e analisada de forma mais consequente. Porque Octavio Paz, que “sempre foi crítico da realidade que tinha à sua volta”, com o tempo começou a deixar de sê-lo, e, como poeta, acabou se “cristalizando bastante cedo”. Neruda pôs em cena o seu ego monumental para a criação de suas obras “cosmogônicas”, mas não conseguiu levar sua empreitada muito adiante, e Borges, segundo Floriano, é um grande “fabulista”, um homem dono de uma grande capacidade de fazer de si o centro do mundo e de criar mundos possíveis, mas que, como poeta, faz valer as palavras do crítico Gerardo Deniz, sendo muitas vezes “previsível e enfadonho”. 
Nesse diapasão de leitura crítica, para Floriano, não só o nosso desconhecimento da literatura hispânica é aviltante, como o que conhecemos é muitas vezes referendado sem muito rigor e absorvido de forma um tanto epidérmica. E um caso onde essa distorção se dá de maneira mais aguda é no que diz respeito ao cubano Lezama Lima, um dos seus autores prediletos, mas cujo caráter algo “enciclopédico” de sua obra e sua reivindicação de uma estética autóctone por intermédio da figura do Señor Barroco, presente em um dos seus ensaios, acabaram sendo apropriados pela estética Neobarroca de Severo Sarduy e pelo Neobarroso do argentino Nestor Perlonguer, que fizeram uma leitura distorcida do grande poeta, autor de Dador. E nesse ponto Floriano parece dar as cartas da tradição poética que realmente lhe interessa. Segundo ele, todos esses autores tentaram, cada um à sua maneira, “ser Deus”. E que cada vez mais lhe “parece que a grande tradição poética é consubstanciada por quem se recusa a sê-lo” – arremata. É assim que trava o seu pacto luciferino com o anti-cânone das letras hispânicas, ou pelo menos com o lado menos óbvio do mapa dessa cultura, e fala de suas predileções, como o poeta venezuelano José Antonio Ramos Sucre, que “se matou por não suportar mais a presença de visões que lhe assombravam a existência” e não vivia “em um plano literário, mas sim na mesma dimensão excessiva de um Artaud”. Faz uma menção especial aos poetas do Chile, cuja “vertente múltipla encontra em Pablo de Rokha, Rosamel del Valle e Humberto Díaz-Casanueva uma fonte de renovação que não desconsidera o autóctone e se manifesta no diálogo com a Europa”. Já no colombiano León de Greiff, “encontramos o mais surpreendente caso de polifonia na tradição poética latino-americana”, enquanto o guatemalteco Luiz Cardoza y Aragón “soube buscar na algazarra da modernidade uma voz que fosse a soma de todas”. Floriano ainda repassa o nome do nicaraguense Pablo Antonio Cuadra, que, assim como Lezama Lima e Octavio Paz, foi um dos autores pioneiros nas leituras que têm como objetivo uma definição cultural da América, e que “estabeleceu uma nova relação com o mito”.
Claro que essa dificuldade de penetração do Surrealismo no Brasil não se deve apenas a um fator ocasional e à formação do cânone. Deita raízes em uma longa tradição positivista, que se espraia em uma série de esferas da vida social e intelectual e bloqueia qualquer iniciativa de subversão de seus postulados. Para Floriano, nossa história é marcada tanto pelo peso de teorias cientificistas, no pior sentido desta palavra, quanto por certa “chaga cristã”, que, por exemplo, obstou uma efetiva “explosão do ser” nas obras de Murilo Mendes e Jorge de Lima, tornando-os fraturados e divididos em suas consciências entre a aspiração a uma liberdade total e os limites motivados pelo pecado e pela negação católica, e, portanto, incapazes de levar às últimas consequências a proposta Surrealista como ela de fato o foi em outros países. Já o caráter cientificista das teorias positivas, que encontrou ambiente fértil no Brasil, estimulou uma relação cada vez mais imanente e estrutural com a linguagem poética, a ponto mesmo de desvinculá-la da matéria vital que lhe origina e transformá-la em um arranjo de signos, “apartada da realidade”. Na ótica de Floriano são mais ou menos esses os ingredientes de um novo falseamento da história, levado a cabo pelo Concretismo.  E mais uma vez, em 1956, com o Plano Piloto da Poesia Concreta e tudo o que adveio daí, temos um recorte “fabricado” da história e um novo “regime de exceção”. Se o “afazer” poético se torna uma forma de “afasia”, e ao invés de construirmos uma linguagem que plasme e transfigure todas as dimensões do mundo e todas as camadas da realidade nós nos isolamos nela como nefelibatas em suas torres de marfim, sob a desculpa de só assim podermos conquistar aquela autonomia da linguagem poética inaugurada pela arte moderna, então rompemos todos os vínculos entre o pensamento e a ação, e todo o projeto de criar uma arte inclusiva e de valor rigorosamente continental vai pelos ares.
O interessante é que Floriano, em um dos seus livros, Fogo nas Cartas, defende a tese de que a poesia, mesmo sendo “intransitiva”, é filha da “alteridade”. Sua visão é de que poesia e política se complementam, assim como a reversibilidade do imaginário e do real pode gerar novos horizontes, novos focos de luz que podem incidir e transfigurar a face da realidade que se nos apresenta. Assim, a chamada autonomia não é algo que se esgota na linguagem, tomada em si mesma, composta a partir de regras intrínsecas e em oposição ao mundo, nem algo que deve servir de veículo ou instrumento de transformação desse mesmo mundo, porque senão ela seria política sem ser poética, mas um misto dos dois. E é nesses termos que ele se refere a alguns dos poetas brasileiros como “autistas”: crêem que a autonomia nasce de um “idioleto”, de uma fala exclusiva criada por eles mesmos ou pela manipulação da linguagem em uma dicção especial e especiosa que por ventura tenham encontrado. Pelo contrário, Floriano diz que a autonomia do poeta só nasce no momento em que ele “mergulha em todas as águas”, e sente sua voz a tal ponto madura que pode com ela e nela plasmar e encarnar a realidade que o circunda, não apenas descrevendo-a ou manipulando técnicas, mas penetrando verticalmente o mistério Ser e o seu devir.
Essas considerações ganham uma dimensão muito ampla se pensarmos na história de nossa mentalidade e nas estruturas hegemônicas do pensamento no Brasil. Basta lembrar que boa parte da nossa poesia e da nossa crítica literária atual flertou ou ainda hoje mantém vínculos fortes com a vertente Estruturalista, com a semiologia ou com as escolas mais recentes dos desconstrucionistas, como a de Derrida, por exemplo, que pregam um recorte poético sincrônico e atemporal, onde a poesia pairasse incólume, livre das contingências e cristalizada sob a forma de um puro enunciado discursivo. É claro que de novo isso não tem nada, e já está na antiguidade: o velho filósofo grego Crates, da escola cética, também propôs que a verdade era inacessível, porque tudo era fruto de artimanhas da linguagem. Com a diferença que Crates, de posse dessa mazela existencial, foi viver com os cães, dormir em um barril, ter seu corpo forrado de pústulas e se alimentar exclusivamente de tremoços, revelando no mínimo mais coerência e honestidade intelectual do que os nossos novos céticos, que usam toga universitária e falam francês.
Por outro lado, há uma outra tradição intelectual brasileira que procura dar fundamentos ontológicos à história, e é movida por uma busca romântica frenética de Nacionalidade e da essência nacional que nos constitui, busca essa que, malgrado ser frenética e muitas vezes proceder por meios tão equivocados quanto o mérito intelectual daqueles que a exercem, até que poderia ser de bom talante, caso não desprezasse os meios em benefício dos fins. Em resumo, no meio-fio entre essas duas correntes do pensamento, somos marcados por uma história intelectual cuja chaga, para além de cristã, parece vir coroada pelo dilema infinito e pela disputa maniqueísta entre duas forças que funcionam como a mesma simetria de um céu e um inferno: Forma versus Conteúdo. Haja vista que mesmo as variantes desses termos partem deles, ora invertendo seus postulados ora os embaralhando, sem contudo dar um passo sequer além da pobreza dessa descrição de mundo. E penso aqui na Antropofagia de Oswald de Andrade, que pretendeu eleger a “forma brasileira” de ser, e no Concretismo, que “fez da forma um conteúdo”, como um caranguejo que se crê revolucionário por ter decidido andar para frente. O fato é que, para qualquer pessoa inteligente, ambas não passam de um purgatório, e o que esperamos é uma redenção, não um aprofundamento de nossa própria esquizofrenia.
O “mergulho em todas as águas” de que nos fala Floriano Martins é providencial e significativo. Aliado à perspectiva continental de sua visagem literária e ao caráter libertário do Surrealismo, sinaliza que ainda há muita água para correr pelo rio de Heráclito, muitas barragens a serem estouradas e muitas lagoas onde os sapos de ontem, sempre os mesmos, ainda coaxam, a serem arrebentadas pela fúria de seu devir que há de explodir em um futuro próximo, segundo carta de Pierre Naville que Floriano Martins cita. Quem sabe assim a dualidade do bem e do mal seja superada e possamos enfim auscultar a unidade parmenídica do Ser essencial que configura e anima todos os seres, sejam eles movidos pelo fogo, pela água ou por qualquer outro quinto elemento que esteja além da matéria, que desconhecemos e que provavelmente nunca viremos a conhecer.

[2001]




CLAUDIO WILLER | Rompendo estereótipos sobre fronteiras nacionais



Com o lançamento desta antologia de Juan Calzadilla, temos mais um resultado dos esforços de Floriano Martins - que já resultaram em livros como Escritura conquistada (1998) e O começo da busca (2001) - no sentido de romper com a nossa insularidade, ou, em termos mais claros, com o provincianismo brasileiro. Desta vez, apresenta-nos a um "artista total", como já o designaram pela atuação como poeta, prosador, crítico e artista plástico. E, acrescentaria, como filósofo, pois nele a criação propriamente literária e artística é um desdobramento de uma reflexão implacavelmente crítica e, acima de tudo, honesta e sincera, pois, diz ele, "Não escrevo sobre aquilo que passa pela minha cabeça. / Escrevo mais sobre aquilo pelo que minha cabeça passa."
Assim como embaralha as fronteiras dos gêneros literários, da imagética livre, passando por uma gama de ironias e sarcasmos, até a escrita seca e concentrada de Aforemas, Calzadilla também rompe com uns tantos estereótipos sobre fronteiras nacionais. O leitor desta coletânea terá a impressão estranha, talvez até desconfortável, de que a Venezuela fica aqui. Ou de que estamos todos em Caracas. Ou então, de que Juan Calzadilla é o mais paulistano - ou curitibano, ou portoalegrense, ou belohorizontino, tanto faz - dos modernos autores hispano-americanos. Isso, por ele ser universal: a condição urbana - e bem menos humana - do título desta antologia é aquela de todos nós, sem escapatória: "O que foge da cidade foge de si". Daí a ironia cortante, pois "A cidade não admite vãs adjetivações". Quem não se sente retratado em cenas como as de A bolsa ou a vida, e não teve a mesma sensação de estranhamento, de que a "bolsa e a vida nos foram confiadas por empréstimo", e, ainda, "talvez não possamos dispor nem da vida nem da bolsa", pois nossa vida não nos pertence e algo nos foi subtraído bem antes de nos defrontarmos com este particular assaltante?
Calzadilla, com seu Diário sem sujeito, não é desses poetas que aspiram a seduzir o leitor. Menos ainda a mobilizar as massas: quer instigar, provocar desconforto. Chega a declarar-se "um ser abominável". Seus fragmentos não descrevem outro mundo, alguma alteridade idílica. Reiteram a constatação de que o mundo é sempre o mesmo. Antiplatônico, onde, para o filósofo grego, o círculo é representação da perfeição, da lógica que rege o universo, para Calzadilla, trata-se apenas de uma reiteração que sanciona o absurdo da condição humana. Pode-se perguntar como é que toda essa reflexão metaforizada, privilegiando o sentido, desdobramento da "consciência desse equilíbrio / de arco perigosamente estendido / ao qual me condena um pensamento a ponto de disparar", resultando em uma poesia e uma poética do paradoxo, é associada ao surrealismo, que privilegiou o ditado do inconsciente? O próprio Calzadilla nos dá a resposta, ao observar (na entrevista-prólogo desta edição) a diferença entre uma crítica surrealista e os "estereótipos preparados pelos meios de comunicação e de dominação". Sai ganhando, por isso, através da leitura desta Condição urbana, nosso conhecimento de surrealismo, de literatura venezuelana, e, em termos mais gerais, de algo da melhor poesia contemporânea.
Resta saber se a antilírica de Calzadilla, declarada em títulos como Diário para uma poesia mínima, Minimales, Antologia mínima, e em declarações como "As coisas que mais deve ver o poeta são as absurdas", não nos põe diante de um solipsismo, um beco sem saída. Diria que sim - mas acrescentaria que, através da sua poesia e de sua atuação como intelectual, ele nos instiga a romper com o círculo ao enfrentar o desafio de nomeá-lo, pois "A poesia é o gênero que trata do óbvio enquanto tal / mas que assume a dificuldade de expressá-lo". Assim como os cínicos da antiguidade (cujas críticas não eram motivadas pela indiferença, mas pelo inconformismo), e contrapondo-se aos estoicos (para os quais o mundo era naturalmente harmonioso), Calzadilla faz poesia política, embora em sua versão mais cética; por isso, a mais honesta. Retrata uma condição pós-utópica que, para o poeta de Dictado por la jauría, não é novidade: conforme mostra esta panorâmica de meio século de criação poética, seu autor nunca alimentou ilusões, e, menos ainda, quis iludir seus leitores.


[2005]

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

LUIZ CARLOS MONTEIRO | A poesia sem tréguas de Floriano Martins



Floriano Martins escreve poesia como quem repele, de modo radical e irreconciliável, o minimalismo de décadas recentes. Ele intenta afastar de seu discurso lírico certas falácias redutoras e insustentáveis, que manifestam-se tanto na esfera intuitiva quanto no terreno da poética propriamente. Descarta o esvaziamento de conteúdos indispensáveis à expansão e permanência da boa poesia, abolindo também a esterilidade formal provocada pela arrumação solta, artificiosa e aleatória de palavras no poema. E ao divulgar seu novo livro pela Internet – o eBook Natureza morta -, contradiz tudo aquilo que se destinaria a facilitar a engenharia, em muito ilusória, da leitura funcional, supostamente fluente ou veloz.
A expressão-título Natureza morta pode sugerir coisas como modalidade pictórica ou degradação do verde. Ou ainda, a tematização e metaforização do amor, força-motriz da poesia - de um amor em particular, que presentifica-se, paradoxalmente, na constatação da ausência. Contraposto ao amor que apresenta-se carnalizado e orgânico, fragmentado entre a necessidade, a negação e a angústia de sua consecução, e reforçado por uma sensualidade que logra superar a ocultação daquele outro.
Outros temas eleitos por Floriano Martins revelam-se como a religiosidade, a infância, a loucura e a reflexão sobre a poesia. A religiosidade aflora-se nos sete poemas de “Sombras raptadas”, parte inicial do livro. Figuras bíblicas femininas encetam monólogos onde o interlocutor preferencial ou possível, onipresente ou subentendido é o Cristo, que, embora mais raramente, também devolve sua fala. Tais vozes sobrepõem-se, caracteristicamente, à voz subliminar do poeta que as enuncia.
Na sua aproximação ao surrealismo, aos labirintos ativos do inconsciente, essa poesia consegue abrir brechas e possibilidades na busca  de um discurso renovado. São elementos formais definidores neste processo os choques vocabulares entre palavras aparentemente impossíveis de estarem juntas, as metáforas e imagens violentas e inusitadas. O poeta Claudio Willer vislumbrou, em resenha sobre o livro anterior de Floriano Martins, Alma em chamas (1998), relances de “uma crítica de fundo metafísico e romântico à sociedade burguesa”. Crítica que parte, sem concessões, em Natureza morta - apesar da ternura subterrânea nela contida -, do microcosmo existencial do autor: a família. O parentesco a que não se pode renunciar pelo sangue, a não ser que não se tenha ou não se conheça raízes genealógicas neste mundo.
Na terceira parte, “O rastro de um caracol”, sete poemas em prosa versam sobre a infância e suas descobertas projetadas na idade adulta: a relação oscilantemente próxima e distanciada com os parentes, a iniciação sexual adolescente e a herança livresca paterna. Tudo isso filtrado pela concepção ideológica – existencial e social – do poeta de agora, e pelos jogos antitéticos e dialéticos que empreende. E que não deixam margem ao escamoteamento de fatos verdadeiramente vividos ou apenas sugestivamente imaginados.
Essa crítica acirrada, na segunda parte de Natureza morta, chega até a um manifesto sobre a violência – “Às voltas com a violência (e suas campanhas)” -, no qual há questionamentos que ultrapassam a incoerência e a banalidade do senso comum. Tendo já se tornado rotineira nas grandes cidades, como um estado de coisas consentido, a violência requer, para o seu combate de dentro, armas inúteis talvez, como a argumentação da recusa em dela participar.
Em Natureza morta, duas são as formas poéticas escolhidas: o poema-poema e o poema em prosa. O primeiro, mantendo a disposição espacial que privilegia o binômio verso-estrofe, alinha-se em versos brancos ou ocasionalmente rimados, de dimensão fixa ou variável. Ele tende, com frequência, à extensão, provocada talvez pelo excesso diccional de quem mais tivesse a dizer. Os limites do verso são ultrapassados com o salto para outro verso ou estrofe, sob os efeitos do enjambement.
O segundo tem como resultado blocos inteiriços de uma prosa poética aliterante e assonante, que remove-se circularmente, perfazendo um retorno sutil e constante ao já dito, embora de outras maneiras e com outras palavras. Uma forma pode juntar-se à outra – trechos de poemas em prosa intercalam-se, antecedem ou sucedem a inserções de versos e estrofes do poema-poema, e vice-versa.
Mesmo sem decair em moldes demasiado rígidos, essa poesia não admite o leitor dispersivo, adepto do achado fácil ou da construção relaxada. A medida de sua flexibilidade reflete-se numa espécie de sentido oculto, tanto quanto em torpedos e “máquinas de guerra” como mensagens explícitas, que mais e mais vão se aclarando com a leitura progressiva e atenta. Expressões categóricas de cunho afirmativo e conceitual, filosoficamente diluídas ou corroboradas na experiência cotidiana a partir de um discurso compreensível, mesclam-se ao seu oposto, as interrogações renitentes. Estas introduzem-se como indagações sugeridas pela dúvida do afirmado, pela teimosia e cautela em não estabelecer verdades definitivas e últimas.
Em “Paródia do cadafalso”, Nota de Acesso ao livro, Floriano Martins pronuncia-se sobre o horizonte da especulação atual em torno da poesia, e mais extensivamente, da arte: “Abolida a sucessão de tempo e espaço, por ali foram também descontinuidades e diferenças. A arte quando muito pintará a si mesma: uma natureza morta”. No cerne desta visão um tanto pessimista, o poeta, ser despersonalizado e descentrado, anônimo e sem rosto, teria como referencialidade possível apenas a crueza de um cotidiano inglório e excludente nos meandros da urbe. Para não mergulhar completamente neste abismo de injunções prosaicas e transitórias, deverá cumprir - ainda que sem esperança de remissão ou “coroa de louros” -, o que dele é exigido pela poesia em conjunção com a vida. E assim, atendendo a disposições individuais mas solidárias, sustentadas no seu próprio fazer poético, poderá eliminar algumas descontinuidades indesejadas e estabelecer a diferença a seu favor.

[2001]




VÍCTOR SOSA | La incandescente pregunta



Estudos de Pele, del poeta Floriano Martins nos remite, desde su mismo título, a la creación de un mundo aparte, a la invención de un lugar que es el único posible para el poeta: el lugar de la escritura. Entrar en este poemario es aceptar las reglas del juego de la invención, de la creación y de la gestación de un universo que tiene lugar en la ubicuidad del poema y su lectura -esa conjunción que hace posible el sorpresivo encuentro con la poesía. Desde el comienzo, entonces, sabemos qué territorio pisamos. El territorio de la creación poética, el territorio del fingimiento -el poeta, ese fingidor, como quería Pessoa-, el lugar sin límites de la palabra en estado de incandescencia. Palabra desvinculada de ese impositivo ejercicio que el sentido común le ha otorgado: nombrar, dotar de sentido al mundo, jerarquizar y definir fronteras entre esto y aquello, entre el afuera y el adentro, entre lo permisible y lo interdicto que toda sociedad impone.
La  palabra poética -palabra desvinculada de toda servidumbre-, desnombra el mundo, trastoca y desarregla los sentidos (Rimbaud), desjerarquiza y desdibuja las rígidas y artificiales fronteras entre esto y aquello, entre el adentro y el afuera, entre lo permisible y lo prohibido. Palabra desbocada hacia el vértigo, hacia la entrópica incertidumbre de lo real, hacia la puesta en duda, bajo sospecha, de la tranquilizadora categoría de lo verdadero.
En ese territorio de incertidumbre sucede Estudos de Pele. Lo que ahí sucede es una proliferación de escritura en zigzag, de híbridas ramificaciones discursivas en constante transmutación de sus sentidos. Veamos este punto más de cerca: Floriano logra apropiarse de innumerables discursos, decursos y géneros escriturales; todo se va articulando dentro de un ámbito narrativo ya que se trata de historias, pero de historias fragmentadas, astilladas a veces, inconclusas o, más exactamente, carentes de desenlace, de una resolución final, cuentística, diríamos. Si hay una apropiación de lo narrativo, también tenemos una apropiación del género dramático, teatral, escénico. Este recurso abre la escritura poética a un espacio virtual y, por tanto, a un tiempo, el tiempo de la actuación, de la representación, de la “puesta en acto” (Lacan) del poema. Se vive un drama de voces, y un desdoblamiento de esas voces en otras, un tañido de ecos que recorren la escena y que se pierden en la atmosférica imantación allí creada. Diálogos. Las sombras que Floriano Martins proyecta dentro de estes estudos, dialogan entre sí, y dialogan, también, con el lector. Y dentro de esos inquietantes diálogos marcados por el desasosiego, que indagan en las profundidades del ser -y que, por momentos me remiten a la subjetiva y deslumbrante prosa poética de Lispector-, se impone otro recurso estilístico de gran significación: la interrogante, la pregunta; rítmica pregunta obsesiva, como un detonador que hace añicos la pasiva hecatombe de la costumbre. La interrogación constante que atraviesa estas páginas está muy lejos de ser un mero artificio retórico y, más bien, es la columna donde se vertebra lo medular del discurso poético, lo que justifica todo el andamiaje formal y las múltiples apropiaciones genéricas. La pregunta -la gran Pregunta de la poesía- es la que detiene el tiempo lineal de la Historia y nos traslada a un tiempo mítico -que, por estar fuera de la Historia, está siempre presente, es presente perpetuo y arquetipo-. Y la Pregunta se interroga sobre la palabra y sobre el sentido: “Cómo resguardar a palavra sem seu sentido, extraviar o corpo sem dor, a alma sem nela crer?”; se interroga sobre el nombre: “Precisamos, sei, de um nome. Que seja o meu, o teu, outro, mas que falem todos os filhos a mesma língua”; búsqueda de una lengua común, que es también la búsqueda del origen perdido; búsqueda, por la poesía, de la superación del castigo babélico y del alumbramiento de una ecuménica lengua anterior a la Caída. Noble búsqueda imposible porque, el poeta lo sabe: “Os nomes não dizem nada. Teu verdadeiro nome para sempre está perdido”. En efecto, la poesía es una búsqueda de lo imposible y es, paradójicamente, la implícita conciencia de ese fracaso: el nunca hallar lo buscado. Sin embargo, el hallazgo se encuentra en la búsqueda que es el poema, en el incesante suceder de la escritura, en los sorpresivos encuentros y en los inesperados vislumbres que sólo acaecen en la deriva de una escritura que se busca a sí misma. Palabra: nombre: máscara. La máscara -esa persona- es a la vez el símbolo de la representación y del ocultamiento, del artificio y de lo real detrás de éste. Por eso nos dice el poeta: “Quantas máscaras recaem sobre mim?”; “Onde estás, máscara, Festa, és tu?”. Sabemos que somos muchos, pero no sabemos cuantos somos. Desde Whitman, desde Rimbaud, desde Freud, aceptamos la condición plural de la existencia: “¿Me contradigo? Contengo multitudes”, afirmaba el poeta de Manhattan. Y Floriano pasa de la máscara al cuerpo, a la pregunta sobre el cuerpo: “Quantos corpos teus desejo agora?”; “Quantas partes tuas espalhadas por mil corpos?”. El cuerpo imposible, el cuerpo del deseo; cuerpo-metonimia incesante que, al igual que la poesía, se evade en el deseo de la búsqueda: “Ou acaso o que me encanta é seu vazio?”. El cuerpo -al igual que la máscara- es el símbolo de la representación y del ocultamiento del ser, de ahí la imposibilidad de aprehenderlo, de ahí su fugacidad y su vacío.
Si la interrogación es la constante medular de estes Estudos de Pele, la mujer -la Mujer-emblema-, o más correctamente las encarnaciones y apariciones femeninas en el discurso poético, son las articulaciones sin las cuales este organismo poético no podría caminar. Floriano Martins recurre a nombres propios: María, Magdalena, Marta, Ruth, Raquel, Sara, mujeres bíblicas, mujeres míticas, mujeres que también nos introducen en un tiempo perpetuo y circular, propio de la poesía. Todas las mujeres como la Mujer, y viceversa: “com cuantas mulheres te deitarás, supondo que estarei em cada uma delas?”. María, arquetipo de pureza, pero también, en la escritura del poeta, sinónimo de creación -al igual que Dios Padre-: “meu filho me foi doado pelo esplendor de minha ilusão”. Sólo a partir de un esplendor de esperanza se produce el milagro; la creación es, antes que nada, la creación del deseo y el anhelo de una concretud. Fusión de las antinomias: lo carnal y lo espiritual, Dios y el hombre, el deseo y la realización, confluyen: “que não serás Deus enquanto não fores homem”. Otra vez la dualidad y la duplicidad del ser siempre en juego pero abolida la contradicción en la Unidad necesaria. De ahí la importancia de esas mujeres en la escritura de Martins: no hay completud posible sin ellas, sin su invención, sin su participación e intromisión en el lenguaje, en la lengua bífida del poema, y por otra parte, ese complemento es inalcanzable, ilusorio, utópico, sólo dable en el reino de la magia o del mito -del cual hemos sido expulsados hace tiempo.
Estudos de Pele: paradójica definición de ese imposible llamado poesía pero que Floriano Martins logra hacer realidad en el milagro -en el deseo del milagro- de una palabra tan desbocada como intensa; incandescencia que pregunta y pregunta que, en su respuesta, quema.

[2005]




PAULO MONTEIRO | Um poeta de verdade



O Brasil é um país de poetas. "A dor ensina a gemer"., diz um adágio; "Quem canta, seus males espanta", assegura outro. Talvez, por isso, tantos cantem nesta Pindorama. Na proporção dos cantores existentes, porém, os verdadeiros criadores literários são poucos. A maior parte é de subliteratos, mesmo.
Floriano Martins, cearense de Fortaleza, onde nasceu em 1957, é um dos bons poetas brasileiros da atualidade. Incursiona, com êxito, ainda pela crítica literária e o ensaio. Porta culto, tradutor de Federico García Lorca e Guillermo Cabrera Infante, filia-se a uma das correntes poéticas mais representativas da poesia brasileira contemporânea, o surrealismo essa escola já octogenária, mas que tem demonstrado uma capacidade revivente inegável, encontra, entre nós, o poeta de Nenhuma correnteza inaugura minha sede um de seus expoentes.
Li, no mesmo vagar com que se deve tomar um bom vinho, o livro Alma em Chamas (Letra & Música Comunicação Ltda., Fortaleza, 1998), reunindo poemas escritos entre 1991 e 1998.
A felicidade com que Floriano Martins transita entre o poema em versos e o poema em prosa é meridiana, embora sua obra reflita o espírito da escrita automática, natural do surrealismo. Entretanto, esse fazer poético, que sói soar truncado nos epígonos, escoa e ecoa límpido no poeta cearense. E essa clareza transparece nas passagens em verso ou prosa. Nas primeiras, ao aproximar-se bastante da métrica tradicional, dá uma unidade rítmica aos poemas mantendo uma certa liberdade já consolidada no poema do século XX. Na prosa poética chega-se ao verso verdadeiramente livre, fugindo à aridez de muitos que tentaram esse caminho da arte poética.
Veja a estrofe do poeta:

O homem é a metade de seu canto, a metade
de seu mundo devorado pela criação,
linhas e raízes do desejo, pedras negras
do sonho, o homem e sua metade dissolvida
dentro das visões dessangradas, seus ecos.
A outra, blasfema entranha, é a aparição
de si mesmo, o mito destruído, o horror
predileto do ser, vida ornada de miséria,
sonhos macerados, o homem em seu canteiro
de imagens, secreta morada de cinzas.

É assim que (ed. Cit., p. 37), definindo o homem, o poeta define o próprio poema. "O homem é a metade de seu canto…", a metade do poema. em outra passagem, agora em prosa, sentencia: " O poema é como um lagarto voraz em busca de seu enigma verde. Não canto a ninguém. Dissolvo-me para que me alcance. Morra o homem de solidão, até ser o poeta de si mesmo." (p. 51)
O homem é o próprio lagarto, é um animal muito antigo que somente se conhece através do poema, daquela supra-realidade de que falou alhures Fidelino de Figueiredo.
Uma leitura apressada dos poetas pertencentes à família literária de Floriano Martins pode ser enganosa; pode revelar metade do homem, o lagarto, esquecendo sua voracidade em busca do enigma verde, enigma que pode ocultar-se sob diversas formas. Duas delas estão no exotismo dos nomes orientais (já usado pelos simbolistas) ou na recorrência às mitologias e, mais especificamente, às constantes referências a outros poetas. Neles o lagarto vai saciar-se de verde, o verde/verde vida/ que a vegetação poética põe à disposição do homem para saciar sua fome de supra-realidade, sua ancestral necessidade de céu, estrelas, divindades. Isso se realiza com a morte do homem de solidão e o nascimento do poeta de si mesmo.
Ora, esse supra-realismo (sur + réalisme) surge - até mesmo historicamente - como uma negação da torre de marfim simbolista. O símbolo, extirpada a barriga famélica, é a metade audível do canto. É o corpo, o poema. A saciedade, esta sim, é a poesia. Daí as limitações da (talvez pretensa) cientificidade crítica para entender essa poesia, traduzi-la à linguagem não-literária pode revelar-se impossível. O acertado pode ser reescrevê-la, romper com a escritura crítica tradicional. Quando assim se procede vê-se que Floriano Martins, ao contrário da maioria dos nossos comentadores de versos, consegue unir as duas metades de que ele tanto fala em seus poemas. E em o conseguindo apresenta-se como um verdadeiro poeta, um criador literário pleno, como poucos de sua geração.

[2000]


[Jornal O Nacional. Passo Fundo, RS. 30/11/2000.]



terça-feira, 9 de setembro de 2014

MARIA DA PAZ RIBEIRO DANTAS | Estudos de Pele, de Floriano Martins



No título Estudos de Pele, o último livro de Floriano Martins, a palavra pele parece sugerir uma pista falsa. Entrar no texto é praticar Um rasgo bem dentro do abismo, onde o coração dispara e ninguém pode conter a presença do indizível. Trata-se de adentrar um labirinto com passagens em múltiplas direções. O roteiro conduz a um descentramento e este se dá em face de um referencial: o conceito de identidade. Num capítulo da Parte III - O hóspede -, que mescla prosa e poesia, é discutida a questão da identidade, na arte ou fora dela. O mesmo em face do mutável. Desde a Parte I, o texto dá espaço às suas visitas perversas (algumas personagens bíblicas mulheres (em Paródia do cadafalso) e várias outras como em Um livro de Ângela, são apenas dois exemplos. A inesperada visita dessas sombras perturbadas não me leva a pensar senão em uma coisa: temos que aprender a ter mil vidas a um só tempo. O que parece faltar às vezes a essas “sombras” (no caso das bíblicas) é a leveza de ser outra coisa, sem a carga de ressentimento que as liga umbilicalmente a seus contrários. Como em Silentes Suplícios (Marta).
A obra é dividida em nove partes: I – Paródia do cadafalso, II – Sombras raptadas, II – Crime & Fuga, III – Rastros de um caracol, IV – Dores de nada, V – Dália do coração negro, VI – Lusbet: eis o abismo, VII – Um livro de Ângela, VIII – Ruínas exaustas, IX – Modelos vivos.
As labirínticas passagens, as múltiplas direções sugeridas pelo texto de Floriano sinalizam por vezes uma espécie de curto-circuito nos níveis tidos como normais de percepção da realidade cotidiana dentro dos mecanismos em que está estruturada a linguagem da vida em sociedade. É o que ocorre em determinadas situações narradas, como a que temos em O Cão e o Lustre. A cena remete à idéia de demência (uma forma bem próxima da loucura); mas no texto é, nada mais nada menos, que a transcrição, para a realidade objetiva, do flash agônico de uma subjetividade em ruína, a da avó enferma, visitada pelo neto, pela última vez: Lembro que havia um lustre pendendo do teto. A pouca voz me disse que ali estava com ela aquele negro cão, quieto, confiável, suspenso no vazio. Cão ou lustre? Luz ou escuridão?
Mas se na alucinada visão da avó o cão e o lustre são concretamente a mesma coisa, em Plano de Fuga o Anjo Líquido derrama-se na direção do abstrato, do invisível: O anjo derramando-se no copo assustava-me ao dizer o quanto a vida pode ser outra quando não se tem para onde ir dentro de nós. A vida pode ser outra, mas a identidade? O texto persegue a fuga obsessiva do mesmo (que a psicanálise nega), enquanto trai (dúvida ou “ato falho”?) certa inquietude quanto ao ser: E se todas essas sombras não forem apenas uma única sombra, a minha, a provocar-me de inúmeras formas?  Evocaria então um verso de Luís Miguel Nava em que confessa ter a ‘identidade acelerada’.
Inconsciente ou não, o que o texto persegue é a identidade estética. O poema Flagrantes no assoalho (Parte III) expressa um ritual encantatório em que o amor, condenado à morte pela estabilidade do encontro (como se a vida fosse apenas caber em permanência), é convocado à vertigem da busca incessante,

(…)
com deuses assombrosos percorrendo a casa, laminando vertigens para um livro, buscar-te,
buscar-te,
jamais desalentar-se
aguar rios, deixar-se desaguar,
nenhuma lição, apenas o corpo caindo,
a buscar-se: e buscar-te.

Esse ritual encantatório é a própria poesia, perseguida como uma caça onde quer que se esconda, seja no ínfimo ou no grandioso:

(…)
em uma síncope de obsessões, buscar-te, amor,
enquanto o poema te chama e prepara os archotes
que te conduzem por escadarias com línguas voláteis
a seduzir as páginas de teu corpo, sim, teu corpo,
três vezes teu corpo, buscar-te em recâmaras encantadas úmidas invisíveis, um vento sibilante de janelas decifradas pela noite, um coro de trevas, nota contra nota, o bordão entoado pelo acaso (…).

O código desse labirinto pode estar  em Visita de um Lagarto - momento do livro onde uma teia de imagens oníricas se adensa em narrativa cifrada, de sentido subjacente ao texto. Por aí, pele poderia conotar pele de lagarto, em sua adjacência a mimetismo, metamorfose, forma que se muda
Não há no texto um sentido linear a que possamos ter acesso, a não ser precisamente a construção dessa fuga da identidade. Por isso há passagens em que não escolhe entre poesia ou prosa, fica na indefinição, no limiar; deslizante para poder abranger a escuta quase psicanalítica do outro, sempre outro, ao infinito. Daí os recortes nas visões do garoto, coladas nas páginas dos livros e sopradas no ar, diante de inexistentes janelas:

Que forma assumiria tal vestígio em sua vida? As formas significam muito pouco. Poderia seguir recortando-as. Por uma aurícula errante trataria todas as cobras de duas cabeças. Chamaria raio os esfaqueamentos misteriosos que não raro eram comentados em casa E daria pernas ou asas ao pescoçudo gramofone da avó. As formas não lhe bastavam. Um novo personagem lhe despertara para tanto. Arrastava-se brincalhão sobre seu corpo. Não lhe eram mais enfadonhos os sonhos, embora seguissem silenciosos e em repisado repertório. Tudo permanecia o mesmo, mas ganhava em significado.
O instinto natural de subversão nos leva a ouvir o outro, a contraí-lo enquanto perversão essencial à sua própria existência (Floriano Martins na apresentação do seu Alma em Chamas. 1998).

Um Livro de Ângela é momento diverso, em que a narrativa se aclara, torna-se quase linear em seu jorro de imagens urgentes, como a captar o ritmo frenético do instante que passa, através de uma daquelas mil vidas.

(…)
Ângela me oferta a caligrafia de suas vertigens,
encrespa-me enquanto perdura,
é apenas um instante,
e quando lhe abrimos as vísceras não há semântica que nos leve além do instante.
transfigurado ressurrecto melancólico derruído,
porém aquecido pela mesma complexidade:
a dor do instante.

Enquanto metatexto, pratica uma auto-incisão e cria sua própria imagem (narcísica):

                       6.
Escrever assim em quebradiço
Dando a falsa idéia de ser nada
Pender para um ponto ou outro
Mudando de forma ou de olhar
Pingando uma imagem ou duas
Tornando o tolo em santa realeza
Glossário de idéias mal defendidas
Crendo que dure a geometria…
Nem todo um livro de Ângela
Recolhe essa anatomia desfigurada do desejo.
Há algo que lhe escapa
Como se pensássemos na evolução de um mesmo dilema:
Somente a impostura garante o sucesso?
(…)

Estudos de Pele. Um livro original na medida em que pratica um exercício de semântica, trabalhando com materiais provenientes, ou ao menos familiares, ao universo explorado pela psicanálise.

[2005]




JORGE RODRÍGUEZ PADRÓN | Carta de recomendación



Mi imaginario del Brasil se repite en blanco y negro cinematográfico: solitarios sertões y angulosos rostros de cangaceiro, mirando con ojos inexcrutables… Imagen demasiado tópica, tal vez; pero es la que ahora regresa, en este rostro inquietante pero de noble cordialidad al mismo tiempo, de un escritor nacido en el más septentrional de los paralelos de aquela vasto territorio: Floriano Martins (1957), recluido en su Fortaleza (Edo. de Ceará), pero disgregado por todos los vientos y lenguas que configuran esa otra imagen de vigoroso y desbordado mestizaje con que Brasil me regala, a través de aquella visión del mito órfico, en medio de oleadas de ritmo y violencia escondida, de nuevo con el cine. Si Guimarães Rosa, también Jorge Amado. Sobre mi mesa, tres, cuatro libros de este joven pero maduro escritor indesmayable, invencible, a quien me complazco en recomendar. Nunca acota el territorio de su obra; con derrochadora generosidad nos lo abre y regala a todos, para que convivamos con su entusiasmo: un banquete intelectual imposible de saborear si no es abandonándonos a la fuerza explosiva de los sentidos: fecundidad imparable; más que entusiasmo, una pasión de verdad lúcida.
Por la poesía, ante todo. Y, a través de ella, por el bullir de la palabra y su prodigiosa disgregación de sentidos. Pasión, luego, y no menor, por despejar interrogantes y abatir muros de recelo y torpe incomprensión que dificultan nuestro reconocimiento en la manquedad atlántica que nos prolonga en un doble viaje (encuentro, aceptación) tenazmente negado (o desfigurado) más que por las débiles convenciones políticas, con sus censurables componendas, por el recelo del poder literario o cultural, mucho más intransigente por el primero, parapetado trras un discurso cínico: su máscara más mentirosa. La mentira no figura ni en el código estético ni en el equipaje ético que sostienen la escritura desprendida y generosa de Floriano Martins. Digo, en su poesía, Alma em Chamas, como titula su obra reunida. ¿Alma suya, o más bien de la palabra que brinda ese aliento único, fervoroso? Nada de presunción narcisista, “diálogo com o mundo […] fecundo em sua multiplicidade”. Nada de enajenación y aislamiento (esa torpieza), reclamo de, y convivencia con, diversidades y diferencias, sean en la escritura, en la música, en la pintura: un palimpsesto por el que se persigue, a tientas, como en un bosque enmarañado, un sentido para la palabra que lo es, por ello, para la vida.
Y como en su poesía, en el oficio agudo de lector. Como hiciera Borges, Martins nunca se declara buen escritor, “pero un buen lector sí, lo cual es más importante”: ha recorrido de norte a sur el complejo mapa de la poesía iberoamericana, inquiriendo por sus más intrincadas razones (ejemplar, su Escritura Conquistada, diálogo suculento, otro banquete, con poetas de las dos tradiciones); se ha acercado, incluso, a nuestras pequeñas islas atlánticas de acá, leyendo con atención y amor y respeto a Agustín Espinosa, a Alonso Quesada, pero también a Luis Feria, a Manuel Padorno, a Lázaro Santa, a Eugenio Padorno o Andrés Sánchez Robayna. Lo tengo por uno de los nuestros; tanta clarividencia há puesto en ese ejercicio, no en vano se sabe habitante de ese triángulo de espejos en donde nos reconocemos multiplicados. Hace muy poco, ha traducido – con soltura y delicadeza notables – una selección de poemas amorosos de García Lorca…
Pero también se vuelve sobre lo que le es más próximo: en su lectura de la poesía brasileña, acierta con el diagnóstico al resistirse a la convencional ordenación y a sus tópicos referentes (Oswald de Andrade, Carlos Drummond, João Cabral…), para decirnos que allí también son voces dignas de recordación José Alcides Pinto, José Santiago Naud, Ivan Junqueira, Uílcon Pereira, Sérgio Campos…; no disimula su malestar ante el cómodo mimetismo de un decir general que allí, también, parece extenderse como plétora: ¿“Terá a cópia da cópia cem anos de perdão?”, se pregunta com no disimulada ironía; la misma con que invierte el título paciano (La búsqueda del comienzo) para aproximarse al surrealismo latinoamericano, en unos breves pero muy sustanciosos ensayos: Escrituras Surrealistas. O Começo da Busca. Homenaje, pero no ditirambo. Lectura seria de Enrique Molina o del grupo chileno Mandrágora, de Moro o Westphalen, de Sánchez Peláez o Ludwig Zeller o Raúl Henao, de la subversiva escritura de los venezolanos que habitaron bajo El techo de la ballena o dibujaron El perfil y la noche… El otro rostro, menos expuesto y celebrado, del surrealismo americano que no parte – como bien dice – de una derrota como en Europa, sino de “uma exacerbada fé em seu próprio destino”. Nihilismo, aquél; éste, prosperidad.
Imparable Floriano Martins, lleno de innumerables proyectos; entrañable Floriano Martins: nos honra con su amistad, sin habernos visto jamás; y sin que el interés medie en la relación, exagera – excesivo siempre – la fe que pone en nuestra propia aventura crítica. Recomendable Floriano Martins: su apuesta no es por el éxito, sino por el trabajo bien hecho, por una sinceridad sin componendas, aunque ello – las más de la veces, en esta feria de vanidades de la literatura – se vuelva en su contra. Su palabra como entrega siempre: una palabra dada. Merece este reconocimiento, y nuestra gratitud.

[1999]




WILSON MARTINS | Continente de poetas



Julgado, em 94, por um poeta (Marcus Accioly) e dois cantores de música popular (Milton Nascimento e Paulinho da Viola), o prêmio Nestlé de poesia revelou o nome de Aníbal Beça dentre 7.038 concorrentes. "Livros de todo o país", escreve Marcus Accioly, "em caixas e caixas, foram lidos e analisados durante meses, até uma possível certeza, uma convicção. O trabalho foi compensado pela alegria do resultado, único e unânime: Suíte para os habitantes da noite."
Em outras palavras, nesses concursos os vencedores são escolhidos por exclusão, diminuindo progressivamente, na proporção das leituras, as exigências dos julgadores. É fenômeno elementar de psicologia, sem falar no tédio e no cansaço. Os poemas premiados, agora incluídos em volume (Banda de asa. Rio: Sete Letras, 1998), buscavam sugestões ou assimilações gratuitas no vocabulário musical, aplicado de maneira arbitrária e, muitas vezes, com intenções humorísticas: "Chorinho para bandolim, cavaquinho, flautas e violões", ou "Carimbó para gambás, tambor de onça e clarineta", e assim por diante.
Um comentarista dessa poesia afirma que, "em cada verso, em cada imagem, encontra-se uma intensa catexia objetal", do que não duvido, embora prefira os poemas inspirados pela cidade de Manaus. O tropismo surrealista de Aníbal Beça estimula os impulsos analíticos da crítica. O "Poema cíclico", por exemplo, "trava a batalha com o clássico e o moderno", em versos destacados por Paulo Graça: "dos meus olhos saltam/ dois pássaros ariscos/ prontos a deflorar begônias/ em setembro". Ou ainda: "A trave dos meus olhos é pólen de crisântemos: farpas cronológicas". Esse surrealismo tardio, que poderíamos imaginar perempto, ainda é praticado em capelas iniciáticas através do continente, sem excluir o Brasil, cujo grupo surrealista foi organizado e é mantido por Sérgio Lima (Escritura conquistada. Diálogos com poetas latino-americanos. Floriano Martins. Fortaleza/Rio/Mogi das Cruzes: Letra & Música Comunicação/ Biblioteca Nacional/ Universidade de Mogi das Cruzes, 1998).
Entre os "latino-americanos", Floriano Martins incluiu vários brasileiros, como Ivan Junqueira e Donizete Galvão, mas a verdade, nas palavras de Sérgio Lima, é que o modelo na América Latina "é insular e não continental, pois trata-se de ‘ilhas culturais’", o que se confirma de forma por assim dizer física e demográfica nas observações do cubano José Kozer, ele próprio judeu de origem ashkenazi, filho de polaco ateu e comunista e filho de uma checa burguesa e de pais judeus ortodoxos: "em Cuba, nunca vi um porto-riquenho ou um dominicano; nunca vi um mexicano ou um equatoriano; nunca vi um uruguaio ou um argentino. Em Nova York, tenho visto até paraguaios (...)".
O advérbio demonstra que a "verdadeira" América Latina situa-se nas duas costas dos EUA... De fato, trata-se de um mito mental e de uma utopia do intelecto, para nada dizer, claro está, dos subentendidos políticos: não são as línguas que separam, não havendo nenhuma identificação orgânica nos países hispânicos entre si, mas a psicologia e a história, além dos variados ressentimentos que se foram acumulando ao longo dos séculos: "É curioso que este continente de países tão diferentes leve um nome como se fosse um só país", escreve Cabrera Infante em páginas de Mea Cuba que valem a pena reler.
Nesse contexto, é possível que a propensão surrealista, respondendo à sua natureza profunda, seja uma técnica subconsciente de superar a realidade pelo imaginário e de compensar o sentimento de inferioridade pelo desafio do hoje desmonetizado "realismo mágico", mais mágico do que realista. Para o que nos interessa, as entrevistas realmente importantes são as dos brasileiros e respectivas visões pessoais a respeito das nossas letras. Assim, o depoimento de Ivan Junqueira, desmistificando alguns tabus e ideias-feitas com que se alimentam os espíritos simples.
Nossa cultura, diz ele, é européia, como, aliás, a de toda a América Latina: as raízes são portuguesas, espanhola, francesas, alemãs, inglesas, e não africanas ou indígenas. Não menos vigorosas são as suas apreciações sobre Oswald de Andrade e o concretismo (mais a invenção de Oswald de Andrade pelos concretistas e derivados), na linha da revisão de valores sintetizada pelo argentino Leônidas Lamborghini: "devemos desmitificar também no que se refere ao fazer poético", ao que o venezuelano Juan Calzadilla retruca, sem saber, com uma dessas verdades elementares que muitos preferem ignorar: "Segundo Montale, não há contribuição importante em poetas que não provenha da prosa. Sem prosa não haveria boa poesia moderna, e menos ainda entre nós, na América Latina, onde se adotou, e espero que definitivamente, o verso livre, e onde são cada vez mais deploráveis os ensaios de restauração da rima e da métrica tradicionais. A vantagem da prosa é que com ela se pode pensar, presta-se como instrumento a serviço do qual a intuição e a reflexão na produção de pensamentos seguem juntas, porém separadas. Na poesia, em troca, a intuição contém ou afoga o impulso reflexivo ou o torna desnecessário, uma vez que se recusa a qualquer explicação".
Aníbal Beça, de seu lado, propõe a teoria poética no plano das efusões líricas: "Que ela seja clássica moderna contemporânea de vanguarda comportada marginal lírica épica que ela seja nada e tudo e nada: varal chuva casa alicerce arcabouço não importa e nem defini-la comporta-se o que reporta é a fatura do e para o homem assim como a porta da rua é a serventia do poema".
Claro, em termos de reflexão crítica isso não significa nada, confundindo na mesma equivalência a forma e a substância, problema levantado por Floriano Martins na entrevista com Juan Calzadilla, vanguardista, ao que parece, acima de qualquer suspeita. Mas, na medida mesmo em que é hermético, metafórico ou arbitrário, o surrealismo é uma poética de conteúdo, ou seja, exatamente o oposto do que se convencionou entender como arte moderna.

[1998]

[O Globo, Rio de Janeiro, 29.08.1998]




LINALDO GUEDES | A ruidosa agonia dos espelhos poéticos



É um livro estranho, sim, este de Floriano Martins, poeta cearense, que chega às minhas mãos. Estudos de Pele, lançado recentemente pela Editora Lamparina, é composto de poemas onde a tônica do estranhamento é uma constante. Para o leitor e, parece, para o próprio poeta. Não é poesia discursiva, inventiva ou clássica. Ao mesmo tempo, é poesia discursiva, inventiva, clássica. Um livro que rasga a pele da poesia de forma aparentemente sutil, mas em alguns momentos com uma volúpia que nos faz refletir nestes tempos de guerrilha, sejam bélicas ou culturais.
Contador Borges é muito feliz na orelha do livro, quando diz que em Estudos de Pele a sensação de vertigem é imediata, de desconforto idem. “O estranhamento desses Estudos de Pele, o chão do poema, em princípio trêmulo, escorregadio como gelo fino, vai aos poucos se firmando aos nossos olhos, fazendo sentido à deriva, desdobrando sua interrogação aberta só respondida com outra indagação adiante, luminosa, atirando o leitor contra a parede, instigando o homem que ele é intranqüilo neste horripilante começo de milênio, mas que aqui se potencializa, à beira do abismo, pensando-se no extremo de si mesmo”, analisa Contador Borges, análise essa que assino embaixo.
O livro todo, como explica o próprio Floriano Martins numa espécie de apresentação à obra, é um constante vaivém entre o corpo humano e o corpo da criação. De um lado, a pele do erotismo, que perpassa cuidadosa e bem construída por todas as páginas do livro. De outro, a pele da palavra, ou da linguagem poética, com resmungos, amuos, questionamentos e tiros certeiros do poeta.
A pele do erotismo surge, sinuosa, logo no primeiro capítulo - “Sombras raptadas” (aliás, a sombra da interrogação parece perseguir o poeta em todos os poemas). Referências femininas diversas surgem imponentes nas páginas, por mais submissas que possam parecer. Com elas, o poeta trava um diálogo-monólogo (acreditem, isso existe, sim, na poesia de Floriano Martins) onde o leitor acaba sendo o principal interlocutor. Lembra temas bíblicos e adapta, com extrema beleza (isso ao lembrar que Camões já o tinha feito) a história de Jacó, com o eu-lírico esperando por sete anos um entendimento “sobre a terra que carrego em meu ventre”. Aliás, esse primeiro capítulo parece um lento e provocante ritual, com o cultivo de orações em busca do gozo prometido pelas diversas personagens femininas presentes.
Em outros capítulos, o ritual erótico é também uma constante. Como no belíssimo poema “Vestes”, do capítulo “Crime e fuga”. Aqui, os panos nus servem de metáfora para o sangramento da pele:

“Os panos como papiros, inscrições invisíveis que ensinam a
       manter quente a cabeça de um deus morto. 
Nus. 
Com a medida do inferno de cada dobra 
do tecido de que somos feitos”.

Mas é o ritual poético que surge, também com muita força, neste mesmo capítulo. Enquanto deixa anotado em algum lugar que não deve se lembrar de mais nada, o poeta vai lembrando coisas, vomitando versos que nos fazem refletir. Alguns desses versos parecem sinopses dos nossos acontecimentos em pleno 2004; “O esplendor de imagens vicia o poeta em uma enganosa metafísica. Tudo nele é forma transparente”, diz Floriano Martins. E não é verdade que estamos ficando tão viciados nesta obsessão pela imagem? Lembro agora, até, um comentário de um poeta tradicional aqui do Nordeste ao receber o elogio de um amigo às imagens presentes em sua poética: “e o meu poema é uma igreja, para ter imagens?”.
Mais na frente, o cearense é incisivo, ferino, autocrítico. Fala que os poetas são vítimas de nada: “A única enfermidade que lhes cabe é a presunçosa arrogância. Injustos, capitais e amargurados, aqui estamos os poetas, todos, tolos. Onde estala a liberdade?”.
Em outro momento, do mesmo poema, não por acaso intitulado “Arlequim”, é deliciosamente irônico: “Risível um poeta falar de ajuste de termostato? Se considerado que hoje mal troca a lâmpada queimada dos próprios versos, sim. Um encontro de poetas? Sempre temo pela ruidosa agonia de espelhos. A terra enferma, o silêncio indecifrável, essas pequenas agonias rumorejantes. Seja como for, melhor que se encontrem, sempre. Assim doemos ao vivo, uns diante dos outros”.
Doemos ao vivo, Floriano, em busca do hóspede certo para a poesia desesperada que teima em nos cutucar. Em fuga dos espelhos que estão sempre a exibir a imagem poética que queremos ver. E nada mais que isso.
“O que faço com o poeta depois de escrito o poema”, indaga Floriano Martins. Diria, que deixá-lo abandonar-se nas mãos do leitor. Ele, o leitor, é que dá o destino merecido a cada poema e a cada poeta. Ele, o leitor, também se dividirá entre encanto e estranhamento com a leitura de Estudos de Pele. Mas não é para isso que os bons livros são feitos?

[2004]




FOED CASTRO CHAMMA | Escritura Conquistada, de Floriano Martins


O fogo da palavra envolve com a imagem a linguagem poética. A memória retém a fulguração do deus que a contamina, devolvendo de suas entranhas a Musa, que os poetas comemoram em renovados ciclos de invenção, preservando a descoberta do eu em cada Signo, com a luminosidade que a consciência transforma em poema ou canção. O entrelaçamento com o real originário da negação determina o condicionante da representação que se desenrola de maneira a configurar a realidade, no interior da qual amplia-se o quadro fenomenológico do ser e seus vínculos com o real, cuja dialética o logos recolhe ao código linguístico.
No diálogo com o nicaragüense Pablo Antonio Cuadra, que abre a série de entrevistas com poetas ibero-americanos reunidas em Escritura Conquistada pelo também poeta Floriano Martins, observa-se esse enigma da criação nos dois poemas intitulados “O barco negro” e “ Ancestrais”. O sonho e a realidade se completam na memória do poeta. A dessacralização do eu abre rumo ao moderno no sentido dado à fealdade e ao brilho enquanto identidade que, ao construir a História, esvazia o Mito. Tal como o venezuelano Juan Liscano, penso que a “poesia não é fuga e sim meio” de se chegar ao eu através da Semelhança. Há uma lição nas entrevistas de Escritura Conquistada de alto teor didático para uso obrigatório nos cursos de Letras. “O poeta é fruto de si mesmo.” Todavia, ao negar a liberação interna por meio da obra de arte o entrevistado diria que a liberação interna induz ao saber. A experiência é uma prática do saber e objeto primordial da poesia como devia admitir Lautréamont ao afirmar que todos somos poetas. A assertiva de Juan Liscano de que se une ao Surrealismo através do arquétipo femina é confirmar o mergulho na origem do ser, de onde emerge como imagem, signo e imaginação.
Do mesmo modo, no diálogo com o Absoluto, entre “signos cabalísticos”, o chileno Enrique Gómez-Correa “desbrava o reino do imaginário”, reino da Mandrágora. A liberdade de criar está em aderir à imaginação, pois nesse primeiro estágio crítico da razão o poeta inaugura o duplo como metáfora, esvaziando assim o reduto do mito, no qual reina o eu e o poder originário de uma arte mágica que o Surrealismo resgata.
Fernando Charry Lara, da Colômbia, ao referir-se à essência das coisas deixa explícita a Voz, que o poeta transforma em som e ritmo e recolhe ao passar da fala à linguagem. Do mesmo modo que o peruano Javier Sologuren, penso que o signo é a alça que dá expressão ao sentido, atendendo a imagem à linguagem poética em sua mira de essências. A concepção do homem em harmonia consigo mesmo associado à expansão da consciência resume pois a criatividade. Para o chileno Rolando Toro a ética de Sócrates nivela-se à concepção solidária de Jesus no sentido universal do ser. A conversão da dor, da morte, da ausência e do esquecimento é o âmago da Beleza como fulguração do eu, que o poeta revela à “sociedade secreta” dos poetas. Penso nas palavras unicamente como “via de acesso à realidade”, onde se completa a fusão arquetípica com a memória. A viagem pela imaginação e o sonho é produtora do tempo resgatado pela memória. O império da imaginação é o da arte mágica, desafiadora do logos no sentido de ascensão prometêica do eu ao real. Ouço ainda Rolando Toro dizer: “Estranho o pântano que nos engendra. / Para podermos ser nós mesmos / devemos deixar de ser”.
As raízes poéticas da linguagem pertencem, imagino, à ordem secreta da imaginação que não se mescla à ratio sem provocar atrito. A poesia é um culto e o poeta o oficiante. A roda que perlustra o sonho devolve o passado ao futuro. Como conjuro a poesia revolve a roda que lustra o sonho. O terror “como objeto magnífico” fundamenta a Beleza e a Verdade. Sem os “capuzes”, a poesia é invenção. “Sílaba incandescente do desejo”, do chileno Ludwig Zeller, é um “redemoinho de angústia” diante das “serpentes de areia”, para as pupilas no deserto; são Hieróglifos, quartzos da noite, ramos escuros “que em nós se fecham para sempre”. Ao correr “a água por um mesmo espelho”, repetimos os “enigmas”  de Ludwig Zeller.
O Surrealismo ibero-americano desde o início do século está à frente do formalismo hegemônico voltado para o social. A poesia deve ser escrita com sangue, como queria Nietzsche, para se aprender que “sangue é espírito”, aprender a transformar as serpentes da cabeça de Medusa em Beleza. O venezuelano Juan Calzadilla sabe que o “curso abissal do poeta” é a “espessura de leituras”.
A noção de fazer poesia com palavras implica adesão ao Signo como ferramenta da imagem e realidade virtual do poema. Uma previsão arcaica do avanço da técnica na sociedade do espetáculo. “Estilhaços da linguagem são a memória e o sonho”, diz Pedro Lastra, do Chile; daí a estranheza com que anuncia o mundo como de cunho fantástico. Os versos em “Pontes movediças” assinalam o transitório como fator fantasmático da Presença. Sigo completando o que diz o venezuelano Alfredo Silva Estrada, que todo poema é canto na medida em que a Voz se incorpora à palavra. O poema é a Morada do homem, sugere Hölderlin, é negação e fundação do que o poeta inventa. Toda experiência é reinvenção das “vozes subterrâneas” que emergem. Não acredito no “declínio geral desta época”, como queria Borges, desde que o reencontro do eu é ainda a grande meta frente ao alto desenvolvimento da técnica, onde ciência e poesia assumem análoga realidade virtual. Assim pensa também o mexicano Gerardo Deniz. “A sombra é a única muralha”, diz Eugenio Montejo, da Venezuela, completando o duplo que é a vulnerabilidade trágica do ser.
O dever mágico nos poetas, indagação formulada por Floriano Martins a Sérgio Lima, está em transformar a imagem no imaginário como fundação do ser, acepção inclusive de Bachelard e de Blake. “A arte é meio de expandir a consciência”, afirma Marcel Duchamp. A imagem é a essência da poesia. Sérgio Lima é um grito na opacidade de uma retórica afastada das fontes verdadeiras da Poesia. O cubano José Kozer constrói uma linguagem pinçando as origens no país que emerge do Bezouro e coça a barba diante da harpa de Davi. A ancestralidade é o arquétipo de José Kozer. O hermetismo da Cabala organiza sua poética compulsiva. Inegável também o talento do brasileiro Sérgio Campos. Belos poemas que justificam o “esquecido assombro de estarmos vivos” e nos reserva o campo de liberdade da poesia que emerge na palavra e o boliviano Eduardo Mitre converte em linguagem, transformando o mistério do eu em mirabilia e estratégia da fala que se perde na Semelhança.
É diabolicamente importante este livro que traz como título a confirmação de Escritura Conquistada. Ich Ruhmer. É como o Sol, o tempo da Razão ardente, epígrafe extraída de um poema de Apollinaire para ilustrar a poesia do boliviano Eduardo Mitre, que recobre em toda sua extensão o esforço bem sucedido de Floriano Martins.

[1999]