terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

FLORIANO MARTINS | Alguns livros virtuais




Esfinge insurrecta - Poesía en Chile | Floriano Martins y Juan Cameron

Reunião de textos críticos (ensaios, enquete, resenhas, entrevistas) escritos e organizados pelo brasileiro Floriano Martins e o chileno Juan Cameron, este livro conforma um painel rigoroso e amplo da tradição lírica chilena ao longo do século XX. E como bem definem seus autores logo no início, trata-se de uma contribuição à ideia de um mundo compartilhado por todos.

http://www.bookess.com/read/19142-esfinge-insurrecta-poesia-en-chile-floriano-martins-juan-cameron/

Acesso gratuito



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O hábito do abismo - Entrevistas com Floriano Martins | Org. Márcio Simões


Este livro reúne 24 das mais destacadas entrevistas dadas à imprensa em vários países pelo poeta, ensaísta, editor e tradutor brasileiro Floriano Martins, criador da Agulha Revista de Cultura. São diálogos realizados entre 1989 e 2010, organizados e prefaciados pelo poeta e tradutor Márcio Simões.

http://www.bookess.com/read/19007-o-habito-do-abismo-entrevistas-com-floriano-martins-de-marcio-simoes/

Acesso gratuito





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La efigie sospechosa, de Floriano Martins

Poemas y ensayo fotográfico | Prólogo de David Cortés Cabán | Conversa en el epílogo con Alfonso Peña | Modelo en las fotos: Dheyne de Souza | Traducción Marta Spagnuolo | Diseño gráfico y de cubierta: Ernesto Bolaños. | Imagen de cubierta: Floriano Martins | ISBN 978-9968-929-32-5 | Ediciones Andrómeda San José, Costa Rica, 2010. | Edición virtual a cargo de ARC Edições © 2013 | Fortaleza, Ceará, Brasil | Circulación, Bookess.

http://www.bookess.com/read/19022-la-efigie-sospechosa-de-floriano-martins/

Acesso gratuito





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sábado, 14 de fevereiro de 2015

JOSÉ CASTELLO | Literatura e vida

Na declaração coletiva que emitiram em 27 de janeiro de 1925 - lá se vão noventa anos! -, os surrealistas franceses de Breton, Artaud, Aragon e tantos outros afirmam dois princípios cruciais. Primeiro: "Não temos nada a ver com a literatura". Segundo: "O surrealismo é o meio de libertação total do espírito". Reencontro as duas ousadas propostas durante a leitura de "Sobre o surrealismo", ensaio de Aldo Pellegrini (Sol Negro Edições, Natal, RN). A declaração dos escritores surrealistas franceses (copio Pellegrini) termina assim: "O surrealismo não é uma forma poética. É um grito do espírito que se volta para si mesmo decidido a pulverizar desesperadamente suas travas". Tem a aparência de uma luta contra os escritores e sua escrita. Neles aplica, na verdade, uma injeção de vigor.
Ainda hoje muitos acreditam na "literatura pela literatura", crença que a afasta do mundo e que nos rouba um potente instrumento de interpretação e convívio com o real. Mas, lembram os surrealistas franceses, "o canto pelo canto em si não existe (nem mesmo nos pássaros)". Todo canto - poesia, mas também ficção - carrega sentimentos de amor, de ódio, de cólera, de desejo de viver, de desespero, de angústia de morte. Esse canto não se limita a "explicar" as coisas mas, ressaltam ainda os surrealistas, "é parte vivente do homem". É a vida que se entrega como poesia - e, portanto, quando falamos de literatura, é da vida que, mesmo sem perceber, continuamos a falar.
     Ainda hoje não é fácil defender essa ideia porque os "práticos" e apressados logo pensam na literatura panfletária, ou engajada, e a excluem. Logo reduzem a afirmação a uma palavra de ordem. Não suportam, assim, a notícia espantosa que ela carrega. Lembra Pellegrini que a obsessão pelo vital não é exclusiva do surrealismo. Na verdade, ela se espalha por toda a literatura: ela é parte essencial da literatura. Isso se excluímos a literatura escrita burocraticamente, ou que se ampara na busca dos efeitos pragmáticos. Talvez hoje as obras dos surrealistas pareçam um tanto ultrapassadas ou, pelo menos, datadas. Mas suas ideias, mostra Aldo Pellegrini, guardam o mesmo vigor. Elas não envelheceram. Estão, talvez, reprimidas pelas obsessões "objetivas", isto é, aquelas que só consideram os resultados imediatos. Mas continuam aí.
     Em um mundo que se torna cada vez mais incompreensível, a literatura, com seu olhar expandido e sua vivacidade, está aí para nos ajudar a viver. Ela afirma a importância da imaginação que, em vez de ser disfarce e cegueira, como muitos ainda pensam, é um instrumento de ampliação do real. Admite Pellegrini: "A importância dada à imaginação, ao mundo fantástico e ao dos sonhos, pode levar a crer que o surrealismo significava um mundo de evadir-se da vida". Ao contrário, ele diz, o surrealismo enfatizava a necessidade de penetrar na vida para "explorar todas as suas possibilidades". Necessidade que, muito além das escolas e dos grupos literários, é cada vez mais forte.  





[Jornal O Globo. Rio de Janeiro: 02/11/2015]






segunda-feira, 29 de setembro de 2014

JORGE PIEIRO | Ante a busca do que se tarda



Não é fácil ao ser humano conviver com uma causa que, à revelia, o eleva à condição de guardião ou legítimo representante. Diante de todas as ocorrências mundanas, o desvario, a inconseqüência, o oportunismo e o equívoco parecem tomar lugar de destaque nas vitrinas. Aos curiosos passantes, fica apenas um reflexo dos brilhos falsos. Daí, a reprodução de modelos e o surgimento de modismos é inevitável, infelizmente.
Quando se trata de poesia - esse gênero sempre em ebulição, congestionador do pensamento, tão reproduzido e decantado, e também tão fustigado por mentes pródigas - a evidência desses efeitos é estarrecedora. As conseqüências, então funestas, revelam deformações, na maioria das vezes, reparáveis apenas com muita paciência, persistência e dedicação.
Se, no Brasil de tantos poetas, a poesia se multiplica em rios de muitos afluentes, deixando o pobre leitor - quando há - à mercê de correntes e contracorrentes, imaginem a desinformação que paira sobre esse mundo, a um só tempo, sem fronteiras e (im)perceptivelmente marginalizado. Não é à toa que enormes catedrais se erigem e fazem ecoar suas doutrinas, seus credos, instigando adeptos a se concentrarem nos limites do próprio umbigo.
Expandindo esse ponto de vista, o que se poderia ainda dizer a respeito do (des)conhecimento de um momento pleno do pensamento universal, equivocadamente reduzido a acidente de comportamento estético dentro dessa estafante modernidade - o Surrealismo -, e, extrapolando, sobre a indigência desse conceito dentro da história da poesia brasileira e, exponencialmente, a partir dos limites da América Hispânica?
Para resumir essas idéias, exemplificando-as, eis o que o ensaísta, crítico e poeta cearense Floriano Martins, apresenta ao leitor brasileiro: O começo da busca - O surrealismo na poesia da América Latina, obra que demarca um breve acesso à desconhecida história da literatura hispano-americana, amparada por uma dosagem crítica. A obra vem a lume como parte integrante da Coleção Ensaios Transversais, publicada pela Escrituras Editora, de São Paulo.
Como dedicado pesquisador de poesia, o autor de Escritura Conquistada - Diálogos com poetas latino-americanos (Letra e Música/ UMC/ Biblioteca Nacional, 1998) -, apresenta neste O começo..., uma primeira parte, em que extenso estudo introdutório defende idéias, tais como, a de que ''não se pode situar o Surrealismo eclodido na América Hispânica como imitação ou mero reflexo da corrente parisiense'', ou que ''o leitor brasileiro pouco ou nada conhece acerca da poesia hispano-americana'', ou ainda que, sem querer discutir sobre uma já desgastada e nunca esclarecida questão, acaba confirmando a presença do Surrealismo no Brasil, como bem defende o poeta Sérgio Lima.
A segunda parte do estudo, dá acesso a uma antologia dos poetas Aldo Pellegrini e Enrique Molina (Argentina); César Moro e Emilio Adolfo Westphalen (Peru); Octavio Paz (México); Enrique Gómez-Correa e Ludwig Zeller (Chile); Juan Sánchez Peláez e Juan Calzadilla (Venezuela); Roberto Piva e Sérgio Lima (Brasil); e Raúl Henao (Colômbia), numa amostragem da poesia visceral produzida ao longo do século XX. Trechos de depoimentos antecedem cada bloco de poemas, tudo em tradução do organizador.
A última parte, destaca entrevistas com Roberto Piva e Sérgio Lima (Brasil), Ángel Pariente (crítico espanhol), Francisco Madariaga e Enrique Molina (Argentina), como respaldo às conclusões do pesquisador.
Não cabe aqui discutir as aparências ou a verdade indesejada por muitos críticos literários. O começo da busca, em sentido contrário ao historicismo protagonizado por Octavio Paz sobre o Surrealismo na América, em sua obra La búsqueda del comienzo, é um resgate, ainda que tardio e acanhado - por razões mercantilistas? -, de uma das vertentes mais polêmicas da história literária contemporânea. Aderindo ao pensamento do autor, o Surrealismo, apesar das contradições e dos equívocos, ainda é a ''instância maior da poesia em nosso tempo''. As evidências de continuidade e renovação do movimento fora do âmbito parisiense, no passado, não podem ser desprezadas.
Pouco a pouco, ilumina-se a face obscura dessa vertente da poesia, muitas vezes vilipendiada no Brasil, conseqüência, não menos da rejeição dos críticos, mas da sonegação de uma verdade, fruto de antidemocráticas ações voltadas apenas para vaidades aparentes. Esta outra face da moeda, diga-se de passagem, pode fazer o pesquisador correr riscos, caso ele opte pela radicalização do pensamento, descambando para o mesmo engano de outros guardiões, ao protegerem seus credos e doutrinas.
No entanto, ao defender um fundamento, O começo da busca acaba insinuando e realçando as palavras de Emilio Adolfo Westphalen, para quem ''em poesia não há fórmulas de aplicação assegurada e é vã toda 'poética'''. Ou confirmando as palavras de Zeller: ''Eu estimo que os poetas temos uma essência comum em que a maior parte das vezes coincidimos: nem é tão consciente Valéry, nem são tão instintivos os surrealistas. Há um meio termo que permite valorizar melhor ambas as tendências. Além do mais, é sempre mais válido o resultado do fazer poético que qualquer teoria que posteriormente se torne rígida.''
Assim, dá-se a defesa de uma causa, apesar dos empecilhos e do tempo que se tarda.

[2002]

[Jornal O Povo, caderno Vida & Arte, Fortaleza, 26/03/2002]




RODRIGO PETRONIO | Floriano Martins e o mergulho em todas as águas



A verdade é que todos querem ser Deus. E cada vez me parece que a grande tradição poética é consubstanciada por quem se recusa a sê-lo.
Floriano Martins

Se a inteligência de um homem é proporcional à sua capacidade de estabelecer recusas, ao conversar com o cearense Floriano Martins tem-se a nítida sensação de estar diante de um homem muito bem dotado dessa faculdade tão mal distribuída entre os seres humanos, sobretudo entre os intelectuais. Autor do livro de poemas Alma em Chamas, certamente um dos acontecimentos poéticos das últimas décadas, e de uma obra volumosa que abrange ensaios, crítica, tradução e entrevistas com poetas, além de uma série de inéditos, Floriano é um dos maiores conhecedores da poesia latino-americana moderna e contemporânea entre nós, e vem fazendo pontes das mais estimulantes entre essas literaturas e o Brasil. Mas, para nossa surpresa, é uma voz solitária e praticamente isolada em sua proposta. Pela importância e amplitude desse trabalho, veiculado sobretudo nas revistas virtuais Agulha e Banda Hispânica, das quais é editor, assusta sabermos que ele não tenha maior repercussão. Também é de se estranhar que algumas poéticas e estéticas como o Surrealismo, por exemplo, de grande penetração no resto da América e do mundo, não tenha encontrado acolhida em terras brasileiras. E Floriano, para reparar esse lapso e historiar o desenvolvimento do movimento lançado por Breton em Paris em 1921, publicou recentemente o livro O Começo da Busca – O Surrealismo na poesia da América Latina, que traça um perfil histórico dessa estética, emulando e invertendo o título de um livro onde Octavio Paz faz esforço similar, La Búsqueda del Comienzo. Agora prepara o segundo volume desse trabalho, que virá aprofundar, desenvolver e complementar alguns aspectos do primeiro.
São múltiplas as causas da negligência brasileira para com a cultura de seus vizinhos e da nossa resistência a um tipo de representação artística que ele crê das mais subversivas. E é entrando nesses assuntos que a conversa esquenta, e Floriano só falta soltar fogo pelas ventas. Um dos principais motivos dessa barreira brasileira é o que ele chama de “falseamento da história”. Segundo ele, todo corte brusco e abrupto na história produz uma falsificação, pois apaga a multiplicidade do fenômeno no momento em que ele estava ocorrendo. Assim, a eleição da Semana de 22 como o ingresso do Brasil na modernidade, embora seja um fator aparentemente irreversível, não dá conta da diversidade dos fatos e equivale à “leitura do curso das águas em uma lagoa”. Muita coisa se perdeu nesse processo, e a extensa documentação sobre cantos populares colhida por Alberto Nepomuceno, por exemplo, intelectual morto em 1920, anterior portanto à Semana, e de quem Floriano escreveu uma biografia, foi praticamente esquecida em proveito das pesquisas de Mario de Andrade. Por outro lado, o Modernismo teria inaugurado um “regime de exceção”, por meio do qual convalidou seu ideal de modernidade e de nacionalismo imbuído do Futurismo de Marinetti, e a partir do qual passou a criar os critérios eletivos para a formação do cânone literário no Brasil, critérios esses nem sempre de ordem estética, mas meramente ideológicos. E aqui entra o Surrealismo, mais especificamente os argumentos que Floriano desenvolve em O Começo da Busca, e a defesa de duas diretrizes: uma reavaliação urgente do lugar que Murilo Mendes e Jorge de Lima ocupam no cenário da literatura brasileira, instigando a crítica a desvinculá-los de vez dos estigmas limitadores da “poesia em Cristo”, e a recusa desses dois poetas como sendo os únicos representantes do Surrealismo no Brasil, aos quais Floriano soma os nomes de Roberto Piva, Claudio Willer e Sergio Lima, entre outros.
Essas faces se conciliam, no entanto. E ele faz um traçado oblíquo onde procura demonstrar as lacunas do cânone literário brasileiro, articulando-as à história do Surrealismo e a uma série de poetas hispano-americanos desconhecidos por nós. Suas reivindicações são duras, passam longe da fala amaneirada e adiposa com a qual viemos nos acostumando nos últimos tempos no âmbito do debate literário. Assim, ele começa julgando que mesmo a trinca de ases que gozam de prestígio em língua portuguesa – Paz, Neruda e Borges – deveria ser filtrada com maior seletividade e analisada de forma mais consequente. Porque Octavio Paz, que “sempre foi crítico da realidade que tinha à sua volta”, com o tempo começou a deixar de sê-lo, e, como poeta, acabou se “cristalizando bastante cedo”. Neruda pôs em cena o seu ego monumental para a criação de suas obras “cosmogônicas”, mas não conseguiu levar sua empreitada muito adiante, e Borges, segundo Floriano, é um grande “fabulista”, um homem dono de uma grande capacidade de fazer de si o centro do mundo e de criar mundos possíveis, mas que, como poeta, faz valer as palavras do crítico Gerardo Deniz, sendo muitas vezes “previsível e enfadonho”. 
Nesse diapasão de leitura crítica, para Floriano, não só o nosso desconhecimento da literatura hispânica é aviltante, como o que conhecemos é muitas vezes referendado sem muito rigor e absorvido de forma um tanto epidérmica. E um caso onde essa distorção se dá de maneira mais aguda é no que diz respeito ao cubano Lezama Lima, um dos seus autores prediletos, mas cujo caráter algo “enciclopédico” de sua obra e sua reivindicação de uma estética autóctone por intermédio da figura do Señor Barroco, presente em um dos seus ensaios, acabaram sendo apropriados pela estética Neobarroca de Severo Sarduy e pelo Neobarroso do argentino Nestor Perlonguer, que fizeram uma leitura distorcida do grande poeta, autor de Dador. E nesse ponto Floriano parece dar as cartas da tradição poética que realmente lhe interessa. Segundo ele, todos esses autores tentaram, cada um à sua maneira, “ser Deus”. E que cada vez mais lhe “parece que a grande tradição poética é consubstanciada por quem se recusa a sê-lo” – arremata. É assim que trava o seu pacto luciferino com o anti-cânone das letras hispânicas, ou pelo menos com o lado menos óbvio do mapa dessa cultura, e fala de suas predileções, como o poeta venezuelano José Antonio Ramos Sucre, que “se matou por não suportar mais a presença de visões que lhe assombravam a existência” e não vivia “em um plano literário, mas sim na mesma dimensão excessiva de um Artaud”. Faz uma menção especial aos poetas do Chile, cuja “vertente múltipla encontra em Pablo de Rokha, Rosamel del Valle e Humberto Díaz-Casanueva uma fonte de renovação que não desconsidera o autóctone e se manifesta no diálogo com a Europa”. Já no colombiano León de Greiff, “encontramos o mais surpreendente caso de polifonia na tradição poética latino-americana”, enquanto o guatemalteco Luiz Cardoza y Aragón “soube buscar na algazarra da modernidade uma voz que fosse a soma de todas”. Floriano ainda repassa o nome do nicaraguense Pablo Antonio Cuadra, que, assim como Lezama Lima e Octavio Paz, foi um dos autores pioneiros nas leituras que têm como objetivo uma definição cultural da América, e que “estabeleceu uma nova relação com o mito”.
Claro que essa dificuldade de penetração do Surrealismo no Brasil não se deve apenas a um fator ocasional e à formação do cânone. Deita raízes em uma longa tradição positivista, que se espraia em uma série de esferas da vida social e intelectual e bloqueia qualquer iniciativa de subversão de seus postulados. Para Floriano, nossa história é marcada tanto pelo peso de teorias cientificistas, no pior sentido desta palavra, quanto por certa “chaga cristã”, que, por exemplo, obstou uma efetiva “explosão do ser” nas obras de Murilo Mendes e Jorge de Lima, tornando-os fraturados e divididos em suas consciências entre a aspiração a uma liberdade total e os limites motivados pelo pecado e pela negação católica, e, portanto, incapazes de levar às últimas consequências a proposta Surrealista como ela de fato o foi em outros países. Já o caráter cientificista das teorias positivas, que encontrou ambiente fértil no Brasil, estimulou uma relação cada vez mais imanente e estrutural com a linguagem poética, a ponto mesmo de desvinculá-la da matéria vital que lhe origina e transformá-la em um arranjo de signos, “apartada da realidade”. Na ótica de Floriano são mais ou menos esses os ingredientes de um novo falseamento da história, levado a cabo pelo Concretismo.  E mais uma vez, em 1956, com o Plano Piloto da Poesia Concreta e tudo o que adveio daí, temos um recorte “fabricado” da história e um novo “regime de exceção”. Se o “afazer” poético se torna uma forma de “afasia”, e ao invés de construirmos uma linguagem que plasme e transfigure todas as dimensões do mundo e todas as camadas da realidade nós nos isolamos nela como nefelibatas em suas torres de marfim, sob a desculpa de só assim podermos conquistar aquela autonomia da linguagem poética inaugurada pela arte moderna, então rompemos todos os vínculos entre o pensamento e a ação, e todo o projeto de criar uma arte inclusiva e de valor rigorosamente continental vai pelos ares.
O interessante é que Floriano, em um dos seus livros, Fogo nas Cartas, defende a tese de que a poesia, mesmo sendo “intransitiva”, é filha da “alteridade”. Sua visão é de que poesia e política se complementam, assim como a reversibilidade do imaginário e do real pode gerar novos horizontes, novos focos de luz que podem incidir e transfigurar a face da realidade que se nos apresenta. Assim, a chamada autonomia não é algo que se esgota na linguagem, tomada em si mesma, composta a partir de regras intrínsecas e em oposição ao mundo, nem algo que deve servir de veículo ou instrumento de transformação desse mesmo mundo, porque senão ela seria política sem ser poética, mas um misto dos dois. E é nesses termos que ele se refere a alguns dos poetas brasileiros como “autistas”: crêem que a autonomia nasce de um “idioleto”, de uma fala exclusiva criada por eles mesmos ou pela manipulação da linguagem em uma dicção especial e especiosa que por ventura tenham encontrado. Pelo contrário, Floriano diz que a autonomia do poeta só nasce no momento em que ele “mergulha em todas as águas”, e sente sua voz a tal ponto madura que pode com ela e nela plasmar e encarnar a realidade que o circunda, não apenas descrevendo-a ou manipulando técnicas, mas penetrando verticalmente o mistério Ser e o seu devir.
Essas considerações ganham uma dimensão muito ampla se pensarmos na história de nossa mentalidade e nas estruturas hegemônicas do pensamento no Brasil. Basta lembrar que boa parte da nossa poesia e da nossa crítica literária atual flertou ou ainda hoje mantém vínculos fortes com a vertente Estruturalista, com a semiologia ou com as escolas mais recentes dos desconstrucionistas, como a de Derrida, por exemplo, que pregam um recorte poético sincrônico e atemporal, onde a poesia pairasse incólume, livre das contingências e cristalizada sob a forma de um puro enunciado discursivo. É claro que de novo isso não tem nada, e já está na antiguidade: o velho filósofo grego Crates, da escola cética, também propôs que a verdade era inacessível, porque tudo era fruto de artimanhas da linguagem. Com a diferença que Crates, de posse dessa mazela existencial, foi viver com os cães, dormir em um barril, ter seu corpo forrado de pústulas e se alimentar exclusivamente de tremoços, revelando no mínimo mais coerência e honestidade intelectual do que os nossos novos céticos, que usam toga universitária e falam francês.
Por outro lado, há uma outra tradição intelectual brasileira que procura dar fundamentos ontológicos à história, e é movida por uma busca romântica frenética de Nacionalidade e da essência nacional que nos constitui, busca essa que, malgrado ser frenética e muitas vezes proceder por meios tão equivocados quanto o mérito intelectual daqueles que a exercem, até que poderia ser de bom talante, caso não desprezasse os meios em benefício dos fins. Em resumo, no meio-fio entre essas duas correntes do pensamento, somos marcados por uma história intelectual cuja chaga, para além de cristã, parece vir coroada pelo dilema infinito e pela disputa maniqueísta entre duas forças que funcionam como a mesma simetria de um céu e um inferno: Forma versus Conteúdo. Haja vista que mesmo as variantes desses termos partem deles, ora invertendo seus postulados ora os embaralhando, sem contudo dar um passo sequer além da pobreza dessa descrição de mundo. E penso aqui na Antropofagia de Oswald de Andrade, que pretendeu eleger a “forma brasileira” de ser, e no Concretismo, que “fez da forma um conteúdo”, como um caranguejo que se crê revolucionário por ter decidido andar para frente. O fato é que, para qualquer pessoa inteligente, ambas não passam de um purgatório, e o que esperamos é uma redenção, não um aprofundamento de nossa própria esquizofrenia.
O “mergulho em todas as águas” de que nos fala Floriano Martins é providencial e significativo. Aliado à perspectiva continental de sua visagem literária e ao caráter libertário do Surrealismo, sinaliza que ainda há muita água para correr pelo rio de Heráclito, muitas barragens a serem estouradas e muitas lagoas onde os sapos de ontem, sempre os mesmos, ainda coaxam, a serem arrebentadas pela fúria de seu devir que há de explodir em um futuro próximo, segundo carta de Pierre Naville que Floriano Martins cita. Quem sabe assim a dualidade do bem e do mal seja superada e possamos enfim auscultar a unidade parmenídica do Ser essencial que configura e anima todos os seres, sejam eles movidos pelo fogo, pela água ou por qualquer outro quinto elemento que esteja além da matéria, que desconhecemos e que provavelmente nunca viremos a conhecer.

[2001]




DAVID CORTÉS CABÁN | Floriano Martins y su Escritura conquistada



Esta reciente publicación, Escritura conquistada. Conversaciones con poetas Latinoamericanos, Tomos I y II (Caracas, Editorial El perro y la rana, 2010), recoge cincuenta entrevistas de poetas que exponen sus puntos de vista sobre la poesía y el acto creativo. Siguiendo un orden cronológico (de países) para orientar la estructura y composición de ambos textos, el poeta y crítico Floriano Martins ha logrado fundir un panorama de voces que nos permiten un mayor aprecio de las personalidades aquí representadas: sus pensamientos y juicios valorativos, sus relaciones con las vanguardias y tradiciones literarias, del sentido del tiempo en sus obras, y de la crítica y lecturas compartidas.
En el primer Tomo se incluyen veinticinco poetas que representan los siguientes países: Argentina, Bolivia, Brasil, Colombia, Chile, Costa Rica, Cuba y la República Dominicana. El segundo Tomo lo comparten poetas de Ecuador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicaragua, Puerto Rico, Panamá, Paraguay, Perú, Uruguay y Venezuela. Todos conforman un gran mosaico representativo y variado de la poesía latinoamericana contemporánea. En cada entrevista Martins indaga la relación del poeta con el lenguaje y la escritura, los temas y afinidades generacionales, el estilo y los motivos que abordan sus textos, las inquietudes y las relaciones literarias y humanas con otros autores. Para este propósito, Martins ha creado un puente que va de la expresión hablada hasta la realidad que proyecta el imaginario poético de estos escritores.    
Escritura conquistada… es una obra de un valor incalculable no sólo para los lectores que posean un amplio conocimiento de la poesía moderna, sino también para aquellos que deseen conocer la importante contribución de estos autores a las letras de Latinoamérica. Es ésta, sin duda, una obra que acerca distancias e ideas que convergen en un diálogo abierto al conocimiento, al respeto y la curiosidad de parte de un crítico que indaga el paisaje lírico, la cultura y el estilo que distingue y valida sus obras. A través de estas conversaciones Martins ha rescatado para los que hoy leemos poesía, y para las nuevas generaciones, el pensamiento de estos poetas. Es decir, Martins nos revela el perfil que sólo es posible descubrir conversando con el autor, o cuando inquirimos en su mundo a través de sus cartas si acaso nos muestran, o dejan entrever, lo más profundo de sus sentimientos. Por eso, estas conversaciones proyectan una información sumamente valiosa de sus vidas y de sus obras. Creo que en el ámbito de la poesía latinoamericana contemporánea ningún libro de entrevistas había agrupado hasta ahora a tantos poetas como lo ha hecho Floriano Martins en Escritura conquistada… Magnífico esfuerzo éste, y nada fácil, sabiendo lo escurridizo y difícil que es, en ciertos casos, entrar al mundo personal de un escritor. Un mundo que a veces reserva posturas y actitudes que pueden descubrirnos una imagen diferente del poeta. Aparte de esto, e independientemente de las posiciones que refleje la obra de un poeta, sabemos que cada escritor es un cosmos diferenciado por el tono, el estilo y su particular visión de mundo.
La publicación de estas entrevistas hay que considerarla como una extraordinaria aportación que facilita el estudio y conocimiento de nuestra poesía latinoamericana. Un legado que muestra a las nuevas generaciones el equilibrio justo y certero de lo que es la gran poesía de nuestra América. Un legado donde “…nuestro reino interior es sólo parcela de un reino mayor, que pertenece a todos” como nos dice Carlos Germán Belli (1927), de ese espacio compartido donde el humilde oficio del poeta resplandece silenciosamente. Ese oficio que puede darnos la satisfacción del instante y quizás garantizarnos nada de la vida, como bien señala el poeta mexicano José Ángel Leyva (1958) hablando de sí mismo: “ser poeta no me hace mejor persona, ni superior a otros, no me garantiza la verdad ni me otorga un sitio en la historia”, (palabras proféticas contra el ego, ¿no?).
Espejos relampagueantes, poetas que dejan la imagen esplendorosa de un verso en la mente del lector; poetas idos hacia la eternidad y poetas vivos, mundos ciertamente maravillosos para comprender la total dimensión de sus obras. He aquí en estas entrevistas sus palabras a través del leve fulgor de sus voces: “Hablo del poeta como el ángel…”, nos recuerda la voz del hondureño Roberto Sosa (1930), definición justa para sí mismo en el paisaje de sus versos; y el amigo don Manuel de la Puebla (1930): “la poesía es un modo de ver, de sentir y de apreciar las cosas”, así de simple y profundo su verso relampagueante sobre la página en blanco, ése cuya presencia estremece el alma dejando una emoción que apenas podemos definir. ¡Qué bien nos sentimos ahora aquí, al lado de estos poetas! Qué expansivo y cercano el mundo que nos presenta Escritura conquistada… Sin alejarme, y contra el viento que lleva el canto de los pájaros pienso que Gustavo Pereira (1940) anuncia lo que creo comprender: “No hay manera de eludir el destino, pues siempre tropieza uno con otro destino…” Sea esta obra, lector, parte de ese destino, tuyo y mío, y de todos los que quieran entrar a la casa de la gran poesía latinoamericana.

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David Cortés Cabán (Puerto Rico, 1952). Poeta y ensayista. Ha publicado: Al final de las palabras (1985), Una hora antes (1990), El libro de los regresos (1999), y Ritual de pájaros: Antología personal 1981-2002 (2004). Fue cofundador de la revista Tercer Milenio.  Contacto: dcortes55@live.com.



CLAUDIO WILLER | Rompendo estereótipos sobre fronteiras nacionais



Com o lançamento desta antologia de Juan Calzadilla, temos mais um resultado dos esforços de Floriano Martins - que já resultaram em livros como Escritura conquistada (1998) e O começo da busca (2001) - no sentido de romper com a nossa insularidade, ou, em termos mais claros, com o provincianismo brasileiro. Desta vez, apresenta-nos a um "artista total", como já o designaram pela atuação como poeta, prosador, crítico e artista plástico. E, acrescentaria, como filósofo, pois nele a criação propriamente literária e artística é um desdobramento de uma reflexão implacavelmente crítica e, acima de tudo, honesta e sincera, pois, diz ele, "Não escrevo sobre aquilo que passa pela minha cabeça. / Escrevo mais sobre aquilo pelo que minha cabeça passa."
Assim como embaralha as fronteiras dos gêneros literários, da imagética livre, passando por uma gama de ironias e sarcasmos, até a escrita seca e concentrada de Aforemas, Calzadilla também rompe com uns tantos estereótipos sobre fronteiras nacionais. O leitor desta coletânea terá a impressão estranha, talvez até desconfortável, de que a Venezuela fica aqui. Ou de que estamos todos em Caracas. Ou então, de que Juan Calzadilla é o mais paulistano - ou curitibano, ou portoalegrense, ou belohorizontino, tanto faz - dos modernos autores hispano-americanos. Isso, por ele ser universal: a condição urbana - e bem menos humana - do título desta antologia é aquela de todos nós, sem escapatória: "O que foge da cidade foge de si". Daí a ironia cortante, pois "A cidade não admite vãs adjetivações". Quem não se sente retratado em cenas como as de A bolsa ou a vida, e não teve a mesma sensação de estranhamento, de que a "bolsa e a vida nos foram confiadas por empréstimo", e, ainda, "talvez não possamos dispor nem da vida nem da bolsa", pois nossa vida não nos pertence e algo nos foi subtraído bem antes de nos defrontarmos com este particular assaltante?
Calzadilla, com seu Diário sem sujeito, não é desses poetas que aspiram a seduzir o leitor. Menos ainda a mobilizar as massas: quer instigar, provocar desconforto. Chega a declarar-se "um ser abominável". Seus fragmentos não descrevem outro mundo, alguma alteridade idílica. Reiteram a constatação de que o mundo é sempre o mesmo. Antiplatônico, onde, para o filósofo grego, o círculo é representação da perfeição, da lógica que rege o universo, para Calzadilla, trata-se apenas de uma reiteração que sanciona o absurdo da condição humana. Pode-se perguntar como é que toda essa reflexão metaforizada, privilegiando o sentido, desdobramento da "consciência desse equilíbrio / de arco perigosamente estendido / ao qual me condena um pensamento a ponto de disparar", resultando em uma poesia e uma poética do paradoxo, é associada ao surrealismo, que privilegiou o ditado do inconsciente? O próprio Calzadilla nos dá a resposta, ao observar (na entrevista-prólogo desta edição) a diferença entre uma crítica surrealista e os "estereótipos preparados pelos meios de comunicação e de dominação". Sai ganhando, por isso, através da leitura desta Condição urbana, nosso conhecimento de surrealismo, de literatura venezuelana, e, em termos mais gerais, de algo da melhor poesia contemporânea.
Resta saber se a antilírica de Calzadilla, declarada em títulos como Diário para uma poesia mínima, Minimales, Antologia mínima, e em declarações como "As coisas que mais deve ver o poeta são as absurdas", não nos põe diante de um solipsismo, um beco sem saída. Diria que sim - mas acrescentaria que, através da sua poesia e de sua atuação como intelectual, ele nos instiga a romper com o círculo ao enfrentar o desafio de nomeá-lo, pois "A poesia é o gênero que trata do óbvio enquanto tal / mas que assume a dificuldade de expressá-lo". Assim como os cínicos da antiguidade (cujas críticas não eram motivadas pela indiferença, mas pelo inconformismo), e contrapondo-se aos estoicos (para os quais o mundo era naturalmente harmonioso), Calzadilla faz poesia política, embora em sua versão mais cética; por isso, a mais honesta. Retrata uma condição pós-utópica que, para o poeta de Dictado por la jauría, não é novidade: conforme mostra esta panorâmica de meio século de criação poética, seu autor nunca alimentou ilusões, e, menos ainda, quis iludir seus leitores.


[2005]

domingo, 21 de setembro de 2014

MÓNICA MORALES ROCHA | Overnight Medley, poemas que saben a jazz



En 1959, Bill Evans escribió, en las liner notes de Kind of blue, sobre los retos de la improvisación grupal. Quizá por encima de las dificultades técnicas de la creación colectiva espontánea, Evans puntualizaba la necesidad humana y social de «simpatía» entre los participantes, para lograr un resultado común. Para el pianista de Nueva Jersey, esa dificultad quedó resuelta bellamente [¡y de qué manera!] en las sesiones del 2 de marzo y 22 de abril de aquel afortunado año para el jazz.
En Overnight Medley (ARC Edições, 2014), los poetas Floriano Martins (Brasil, 1957) y Manuel Iris (México, 1983), de alguna manera sobre el mismo planteamiento de Evans, presentan a lo largo de sus páginas:
Un libro sobre jazz que es el mismo jazz. La improvisación pero también la fusión. Algo imposible sin la amistad, la sinceridad, el sentido absoluto de donación, de entrega. (p. 223).
Overnight Medley es un poemario trilingüe (español, portugués e inglés) dividido en cuatro partes: Footprints, a cargo de Iris, entre otros poemas recupera las semillas de este proyecto a cuatro manos; poemas que son, también, de los primeros del escritor mexicano, nacidos como una manera de entender la música y dan “testimonio de una reacción emotiva a un estímulo también emocional.” Iris se hace de una serie de textos que visitan a Ellington, Mingus, Coltrane, Monk, Gillespie y más. En diez poemas regala postales diversas, riqueza de voces, personajes, situaciones. Finalmente, su mirada –curiosa– no abandona el erotismo sutil pero contundente y bien logrado (sabroso, pues).  Un fragmento de mi favorito, “Round midnight”:

Thelonius Monk ha atado los extremos de la media noche
para iniciar la variación de los andamios
que se alargan de tu hablar
a tu gemir de orgasmo                 al primitivo
tiempo de los otros                       los pre-humanos
que se aman contemplando el fuego. (pp. 69-70).

Giant Steps, capítulo de Martins, deja cuenta del “registro natural de [sus] preferencias musicales”, e incluye a músicos como Ayler, Cannonball Adderley, hasta Sun Ra; pasando por selecciones menos «ortodoxas», como Pascoal, Piazzolla y Zappa. Siendo este libro mi primera lectura del brasileño, confieso que casi logra engañarme con el orden alfabético, por nombre de pila de los músicos, en el índice de Giant Steps. En palabras de Iris, independientemente de su edad, Martins es “un poeta joven e irreverente” que juega (y disfruta como niño) con las palabras, sin perder un gramo en la maestría de su oficio poético. Me provocó de inmediato el deseo mortal de aprender portugués para leerle en su lengua materna, que –aun sin entender del todo– al pronunciar los poemas, suenan riquísimos. Acá un fragmento de su texto “Cannonball Adderley”:

Lo que amo es una alegoría inquieta      un pronombre
desprendido del lenguaje
lo que amo es una cuenta de risas y no exige nada de mí
lo que amo por suerte no sé donde se encuentra
libro que comienza en el epílogo
a salvo de sí mismo. (p. 112).

En Mi favorite things,  Martins e Iris le apuestan a la técnica de la escritura automática, propuesta de Bretón y los surrealistas, como equivalente a la improvisación jazzística. Y en una serie de poemas que surgen de temas de jazz, como “So what”, “Meditation for Moses”, “Lost” y “The procastinator”; construyen, al alimón, imágenes que deleitan lo mismo que estremecen. De “Memories of you”, una probadita:

y eres eso: la memoria de una mano
acariciando el lomo                        y eres eso: la memoria
entre dos cuerpos que se acercan al límite
de los espejos                  y eres eso: la dulce
memoria de los fuegos
                                                                              y el camino (p. 157).

Y cierran con Don’t eat the yellow snow, un diálogo con sabor epistolar donde Floriano y Manuel develan los orígenes y el proceso de conformación de este poemario; las delicias tras bambalinas de sus páginas. Un guiño al lector. Una concesión generosa, que pocas veces encontramos en los libros.  
La relación entre jazz y literatura no es cosa nueva. Ya desde sus orígenes Ginsberg, Kerouac y la generación beat, en Estados Unidos; o Cortázar desde Latinoamérica, por ejemplo; han dejado amplio testimonio de los paralelos entre ambos. Para el autor de Rayuela, no podría encontrarse otro género musical con mayor similitud al surrealismo literario que el jazz: el ritmo y la inspiración como elementos presentes, tanto en la escritura automática como en la improvisación; el impulso total. Y, por su parte, los beats asimilaron al jazz como método literario y forma de vida, llegando a autopercibirse como “jazzistas de la literatura”.
Como neófita en los saberes musicales, pero hedonista ávida y voraz escucha de jazz; además de lectora irredenta, no puedo más que celebrar, llena de un gozo indescriptible, que Martins e Iris coincidieran sobre el pentagrama de la vida. Que juntos decidieran publicar este libro que “a partir de la experiencia del jazz, refleja las posibilidades de la amistad, y el amor a la poesía.”
Celebro el Overnight Medley, como celebro una reunión entre amigos entrañables. Me encuentro entre sus páginas, como niña en tienda de dulces, llena de asombro y emoción. Y lo recorro despacio, para dejar que los poemas suenen, estremezcan y lo inunden todo. Sí, la vida es asunto sencillo: jazz y poemas ¿para qué buscar más?

[2014]